Um ano depois, "Operação Fanta" ainda não rendeu frutos

24/01/2007

Um ano depois, "Operação Fanta" ainda não rendeu frutos


No dia 24 de janeiro de 2006, 70 pessoas, entre técnicos da Secretaria de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça e agentes da Polícia Federal, realizaram uma ambiciosa operação de busca e apreensão de documentos e arquivos eletrônicos nas sedes paulistas das indústrias de suco de laranja Montecitrus, Coinbra (hoje divisão Citrus da Louis Dreyfus Commodities Brasil), Cutrale e Citrovita e no escritório da Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus), então localizado em Ribeirão Preto (SP). 


Segundo seus protagonistas, a blitz, batizada de "Operação Fanta", cumpriu o objetivo e levantou provas que, associadas ao depoimento de um ex-executivo de uma das empresas - que concordou em falar por meio de um acordo de leniência - seriam capazes de condená-las (Citrosuco inclusive) por formação de cartel em um processo investigativo aberto em 1999 a pedido de produtores de laranja. Nesse cenário, calculava-se que as indústrias seriam multadas em até R$ 2 bilhões. 


Um ano depois, a Justiça não sabe quando decidirá se os documentos colhidos na maior ação de busca e apreensão da história da defesa da concorrência no Brasil serão reencaminhados às autoridades antitruste ou se seguirão lacrados graças a uma liminar obtida pelas empresas. O Ministério da Justiça não sabe quando terá de volta os computadores, disquetes, CPUs e os mais de 30 sacos de lixo de 100 litros com papéis. 


Para contornar a lentidão do Judiciário, a SDE propôs um acordo com as indústrias de suco: elas pagariam R$ 100 milhões ao governo, que encerraria a investigação de cartel. Mas o Cade não assinou o acordo por motivos formais. Os conselheiros concluíram que a legislação proíbe a assinatura de acordos com cartéis que atuaram após 2000. E o suposto cartel da laranja teria atuado no mercado antes e depois deste limite. 


O caso da laranja também criou uma discussão no governo por causa das vendas de suco aos EUA. Temia-se que as investigações pudessem ser usadas por Washington para processar o Brasil, pois aquele país teria adquirido suco de um cartel. Mas o Ministério da Justiça formulou a tese de que o caso da laranja não é um "cartel de exportação", mas um "cartel de compras". Um "cartel de exportação" leva a dumping, e nessa hipótese o Brasil poderia sofrer restrições na OMC. Com o "cartel de compras", o governo federal descartou o dumping nas exportações. 


E o caso segue aberto. Hoje a Abecitrus representa só a Cutrale, as indústrias diversificaram investimentos e duas entidades (Associtrus e Faesp) disputam a representação dos produtores paulistas de laranja. Indústrias e citricultores ainda têm dificuldades para se entender sobre preços de fornecimento da fruta para a produção da bebida, entre outros motivos pelo temor de que a SDE veja nessas negociações indícios de cartelização, e o suco segue em alta no mercado externo. E, para indústrias e produtores, é preciso reconstruir a cadeia produtiva.