Amazônia: Mais um embate com irlandeses
Nos últimos dez anos a produção de carne bovina aumentou 48% e o volume de exportações em valor aumentou 850%. Nosso rebanho decresceu 1,4% segundo dados preliminares do censo 2006 no mesmo período, o que indica o aumento de nossa produtividade. O Brasil superou a Austrália, não somente por motivos climáticos, e os Estados Unidos - pelo fechamento do mercado asiático. O setor cresceu com competência e consolidou essa liderança hoje com uma margem considerável sobre os concorrentes.
Entre os cinco maiores importadores mundiais, EUA, Rússia, Japão, União Européia e México, só estamos fora dos mercados americano e japonês para carne in natura e vivendo uma lua de mel com a Rússia. Já as sérias restrições da UE que é responsável por 18% da exportação da nossa carne in natura e reúne os países que mais pagam pela carne, dificultam ainda mais a entrada da nossa carne nos mercados de maior valor agregado.
Nesse cenário, a próxima
barreira que enfrentaremos, depois da rastreabilidade, será meio ambiente e desmatamento. As tendências de crescimento da carne bovina brasileira estão sendo relacionadas com o aumento das taxas de desmatamento, levando a discussão para argumentos enviesados, ignorando os aumentos de produtividade do segmento, inclusive na região amazônica.
Na maioria dos âmbitos ambientalistas, as questões sobre o Brasil tratam do relacionamento entre produção rural versus conservação ambiental. Dos principais assuntos discutidos com intensidade, destacam-se aqueles que associam a carne brasileira às mudanças climáticas, ao aquecimento global, à Amazônia, seu desmatamento e à nossa expansão no mercado internacional.
É necessário admitir definitivamente que mecanismos econômicos não podem ser deixados de lado para resolver o problema e fazer cumprir a legislação ambiental e que, os instrumentos utilizados até agora para preservar a floresta foram ineficientes. Não há outro caminho a não ser a criação e adoção de instrumentos econômicos, que remunerem os produtores, responsáveis pelas atividades voltadas à manutenção e conservação da Amazônia, por meio da valorização tributária da floresta em pé e projetos com incentivos fiscais para exploração sustentada de uma parte da reserva legal obrigatória.
O desmatamento da Amazônia está ligado em primeiro lugar à exploração de madeira exportada e comercializada aqui e no exterior. A pecuária entra posteriormente nestas áreas como única atividade que viabiliza uma exploração econômica, mas longe de padrões de uma pecuária moderna. O ritmo do desmatamento será seguramente diminuído com uma ação fiscalizadora e repressora, regularização de venda nacional e internacional de madeira e estímulo ao aumento de produtividade pecuária e da atividade agrícola em áreas já desmatadas.
O impasse com a UE mostrou mais uma vez o notório despreparo dos nossos governos para agir frente a crises comerciais internacionais. Recuperamos as exportações, mas os irlandeses preparam o segundo embate e teremos desdobramentos com as questões ambientais. O nosso setor precisa construir sua própria agenda em relação à área ambiental para não ser novamente atropelado por exigências desprovidas de base científica, que têm impacto negativo sobre o negócio pecuário. Precisamos cobrar das lideranças a definição do zoneamento ecológico-econômico da Amazônia e de todo Brasil, sem o qual aumentarão ainda mais as pressões internacionais sobre a pecuária.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 8)(Nelson Pineda - Nelson Pineda é engenheiro químico, agricultor, pecuarista em São Paulo e Bahia e membro da Câmara Setorial Paulista da Carne Bovina )