Década de desafios para a citricultura
Em transformação nos últimos anos, com mudanças impelidas por fatores econômicos e fitossanitários, a citricultura paulista vive o início de um período de transição que deverá resultar em um novo ciclo para os negócios ao longo da cadeia produtiva.
O diagnóstico é de Margarete Boteon, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Cepea/Esalq), e foi apresentado na quinta-feira na tradicional Semana de Citricultura de Cordeirópolis, no interior de São Paulo.
Conforme informações repassadas pela assessoria de imprensa do Cepea, Margarete voltou a afirmar que é difícil prever como será o comportamento dos preços e a evolução da oferta estadual nesses próximos dez anos.
Segundo ela, entre os fatores que podem estimular a valorização da fruta estão o encarecimento da produção (incluindo custos para o controle de doenças e com mão-de-obra), a limitação da oferta (em parte por causa da doença conhecida como greening) e a concorrência com outras culturas (como cana, eucalipto e grãos).
Deverão agir para a queda dos preços, em contrapartida, o aumento da produtividade (sobretudo com o avanço do plantio das indústrias e de grandes citricultores), a recomposição da oferta da Flórida - que abriga o segundo parque citrícola do mundo, atrás de São Paulo - e a estagnação do consumo de suco em mercados como Estados Unidos e Europa.
As discussões em Cordeirópolis deixaram claro que a cadeia está preocupada com os desafios previstos por Margarete. Tanto que, segundo Maurício Mendes, presidente da consultoria AgraFNP, disse ao Valor que o greening dominou os debates esta semana em Cordeirópolis.
"Hoje a preocupação com a doença é muito maior, uma vez que ela definirá a oferta de matéria-prima. A incidência continua grande na região de Araraquara e outros pólos de produção [principalmente no centro-norte de São Paulo], e é preciso um combate conjunto", disse o especialista.
Provocado por uma bactéria, o greening foi diagnosticado pela primeira vez em São Paulo em 2004, pelo Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), que é custeado por indústrias de suco e produtores de laranja do Estado. De lá para cá, lembrou Mendes, seu controle já exigiu a erradicação de cerca de 4 milhões de plantas citrícolas, e a tendência é que esse ritmo aumente nos próximos anos.
Realizada em Cordeirópolis, a 13ª reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Citricultura decidiu encaminhar à Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, em duas semanas, uma série de sugestões para que a "força-tarefa" que tenta controlar a doença ganhe mais eficiência. Questões envolvendo o relacionamento financeiro entre produtores e indústrias também estão na pauta do segmento.
Mas, com as ações de defesa fitossanitárias já adotadas nos últimos anos, há um número recorde de árvores novas se desenvolvendo nos pomares paulistas. Conforme Mendes, são cerca de 50 milhões, plantadas nesses últimos anos de bons preços do suco no mercado internacional