Crise financeira vai refrear a expansão do PIB do campo em 2008, prevê CNA
O terremoto financeiro iniciado nos Estados Unidos terá reflexos negativos na expansão do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio em 2008. A Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-USP) revisaram para baixo as estimativas de crescimento do setor. O setor, que rompeu um ciclo de três anos em baixa no ano passado, deve crescer 9% ou 9,5% neste ano. Sem crise, a CNA estima que haveria uma expansão de 11% a 12%, disse ontem o novo superintendente técnico da CNA, Anaximandro Almeida. Em 2007, o PIB do agronegócio avançou 7,9%.
As projeções para o PIB, ainda consideradas "muito boas" pelo setor, estão sustentadas no histórico favorável dos preços internacionais das commodities à época da comercialização da safra anterior. A pesquisa CNA-Cepea registra um PIB acumulado de 6,56% em sete meses de 2008. Mas a variação do PIB do agronegócio começou o segundo semestre em ritmo menor do que os 5,66% acumulados nos primeiros seis meses deste ano. Em julho, o crescimento chegou a 0,9%. Nos seis meses anteriores, haviam sido 0,94% na média mensal. Empurrado pelo segmento de insumos, o segmento agrícola ainda mantém a boa performance, mas a pecuária teve forte desaceleração neste período, influenciado pelo recuo das operações industriais.
Diante desse cenário, a CNA decidiu solicitar ao governo a prorrogação, deste mês para maio de 2009, do vencimento das parcelas das dívidas previstas para 2008, além da suspensão temporária de uma resolução do Banco Central que obriga os bancos a rebaixar a classificação de risco dos produtores cujas dívidas tenham sido renegociadas no último pacote de R$ 75 bilhões anunciado em junho. "Precisamos de liquidez no mercado de crédito. Mas também precisamos de condições cadastrais normais para acessar esse crédito", resumiu o superintendente da CNA.
Alvo de um cenário já complicado no primeiro semestre do ano, com falta de limites de créditos em bancos e dificuldades de obter financiamento em tradings, o setor rural deixou de lado a influência de fundos hedge especulativos na formação de preços e voltar a flutuar ao sabor dos fundamentos de oferta e demanda. "Se a economia mundial crescer 3,5% neste ano, teremos uma boa estabilidade de preços. Abaixo disso, haverá queda no PIB", analisa a economista Rosemeire dos Santos, da CNA. O crescimento deve obedecer a três fatores, segundo ela: às ações dos Estados Unidos para debelar a atual crise financeira, ao crescimento mundial e à oferta de crédito para irrigar o setor em 2009. Nesse cenário, a CNA tem recomendado aos produtores a redução da área plantada e o uso de tecnologia para elevar os índices de produtividade das lavouras. "Assim, o produtor mantém o volume e pode ganhar mais lá na frente, na comercialização", diz. Cerca de 20% dos produtores ainda não comprou todo o insumo necessário ao plantio da safra.
A CNA estima que a recente valorização do dólar ante o real pode ter efeitos contraditórios sobre a produção. "A taxa ideal para viabilizar a exportação é ao redor de R$ 1,80. Se subir muito, encarece os insumos. Se baixar demais, significa menos renda", avalia Rosemeire dos Santos.