Cresce endividamento das usinas no país

13/11/2008

Cresce endividamento das usinas no país


Mônica Scaramuzzo

Cerca de 20% das usinas de açúcar e álcool do país estão com alto índice de endividamento, com boa parte delas com dívidas maior que seu passivo. "A inadimplência das indústrias de base já chega a 35%", disse Antonio de Padua Rodrigues, diretor-técnico da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica).

Esse cenário compromete os novos projetos, sobretudo os anunciados na região Centro-Sul. Levantamento da Unica mostra que, entre 2004 e 2008, um total de 85 novas usinas começou a operar no país. Quatro dessas decidiram adiar suas operações para 2009.

Entre 2009 e 2011, outros 95 projetos foram anunciados. Desse total, 35 começariam a operar já em 2009, mas muitos vão adiar para 2010. Outros 60 não saíram ainda do papel e boa parte será engavetada, o que significa menos US$ 20 bilhões em investimentos.

"Metade dos projetos era de grupos tradicionais do setor", disse Rodrigues. O restante se refere a projetos de fundos de investimentos e grupos internacionais. Se todos saíssem do papel, somariam 180 novas usinas, com aporte de US$ 51,5 bilhões. "Uma parte das usinas ainda conta com a liberação dos recursos do BNDES para tocar suas novas unidades", disse.

Em Minas Gerais, um dos Estados que mais tem recebido investimentos em novas usinas, foram anunciados 40 projetos, entre ampliação e novas unidades. Mas apenas metade será concluído, afirmou Mário Campos, do Sindicato das Indústrias de Açúcar e Álcool de Minas Gerais (Siamig). "Só quatro estão garantidos para 2009".

"O setor sucroalcooleiro é o quarto maior investidor do país, atrás do petróleo, siderurgia e mineração", afirmou Manoel Bertone, secretário de produção e agroenergia do Ministério da Agricultura. Bertone participou ontem do 1º Congresso Nacional de Bioenergia, promovido pela União dos Produtores de Bioenergia (Udop).

Atingidas pela escassez de crédito por conta da crise financeira global, as usinas estão operando no vermelho. Mas a situação delicada pela qual passam antecede a crise financeira. Nos últimos três anos, boa parte delas se alavancou para tocar seus novos projetos, mas não contava com a forte queda dos preços internacionais do açúcar nas duas últimas safras.

Nas últimas semanas, representantes do setor sucroalcooleiro procuraram o governo para pedir um pacote de ajuda nos mesmos moldes do concedido à construção civil. O fato é que não há apoio específico para açúcar e álcool. "A prioridade são os recurso para a safra agrícola", afirmou Bertone.

De acordo com ele, o setor será beneficiado por medidas do governo para a agricultura, como o aumento dos leilões de ACC (Adiantamento sobre Contrato de Câmbio) e financiamento para custeio da produção. "Os recursos da Cide já estão comprometidos".

Um dos pedidos do setor, os recursos para estocagem, está em estudo mas não deverá sair este ano. Na próxima semana, representantes dos ministérios da Agricultura e Fazenda vão se reunir em Recife para discutir medidas específicas para o Nordeste. O sindicato de usinas da região pede programas de apoio, como o Petro. "O governo estuda alternativas para a região, o que necessariamente não será o Petro", disse Bertone.