Hegemonia de uma gigante sob suspeita

04/12/2008

Hegemonia de uma gigante sob suspeita

 

As polêmicas em torno da biotecnologia, que contempla os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) - ou simplesmente transgênicos, ganharão ingrediente a mais no Brasil, nesta semana, para "apimentar" as discussões sobre os eventuais danos que as novas tecnologias podem causar à saúde humana e ao meio ambiente. Denúncias que envolvem corrupção, suborno, negligência sanitária, contrabando, abuso de poder econômico etc. associadas a depoimentos de vítimas e de pessoas envolvidas nos vários e fortes episódios supostamente provocados pela Monsanto compõem o livro "O mundo segundo a Monsanto", de autoria da jornalista francesa Marie-Monique Robin, divulgado com exclusidade à Gazeta Mercantil.

O Brasil é o primeiro país da América Latina a contar com o best-seller traduzido e um capítulo à parte, que narra a disseminação das sementes contrabandeadas, forçando a legalização.

As investigações começaram em 2005, após a produção de documentários cujo objetivo era abordar patentes de organismos vivos. Acabaram originando o livro. "A Biotecnologia abriu as portas para a privatização de organismos vivos, violando leis existentes. Para essa investigação, viajei ao México, Estados Unidos, Canadá, Índia e Brasil. Soube que a Monsanto detinha 600 patentes sobre organismos vivos", revela Marie-Monique. Disse ainda que a construção de um monopólio em torno desses organismos coloca em risco a segurança alimentar mundial, encarecendo os alimentos com a cobrança dos royalties.

As invetigações do livro giram em torno da dioxina, utilizada na produção de herbicidas e que também foi empregada no desfolhante usado como arma de guerra no Vietnã, conhecido como "Agente Laranja". A dioxina possui potencial cancerígeno alto e é composta por uma família de 210 substâncias, sendo utilizada atualmente na fabricação dos herbicidas roundup (glifosato) negociados pela empresa. Segundo a autora, a substância ainda afeta crianças recém-nascidas no Vietnã, que estão sofrendo com má formações graves no organismo.

A Monsanto surgiu em Anniston, Alabama (EUA), como uma empresa química especializada na fabricação de PCBs (bifenila policloradas) - líquidos para refrigerar transformadores de eletricidade -, e utilizava grandes quantidades de dioxina no produto entre 1929 e 1971, período onde foi produzido. "Revelei que a Monsanto sabia desde o princípio que este produto (hoje proibido) era altamente tóxico, mas manteve em segredo as informações que tinha. Eu estava em Anniston, onde os PCBs foram produzidos até os anos 1970. Em 2002, os habitantes ganharam uma ação judicial coletiva contra a Monsanto: 50% da população estava sofrendo de câncer, diabetes etc. Finalmente por meio de um processo com mais de 500 mil páginas, a Monsanto foi condenada a pagar uma indenização de US$ 700 milhões", conta Marie-Monique. O segredo, que foi escondido a sete chaves pela empresa, agora está disponível na internet.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Monsanto rebaste as acusações e diz que "os PCBs salvaram muitas vidas e propriedades por sua resistência ao fogo". Acrescenta ainda que "a antiga empresa parou de produzir o líquido oito anos antes de a Agência de Proteção ao Meio Ambiente (EPA, sigla em inglês) proibirem o uso, em 1979". A assessoria da empresa afirma que a intenção do livro-documentário é classificar a Monsanto como uma empresa negativa e tenta abranger muitos problemas com a finalidade de confundir o público, misturando fatos e acusações maliciosas.

A empresa diz se orgulhar em ser líder em biotecnologia agrícola e explica que a segurança dos produtos é avaliada por agências regulatórias em todo o mundo, de acordo com diretrizes sobre avaliações de segurança acordadas internacionalmente. Sobre o Agente Laranja, a companhia alega que foi uma das sete selecionadas para fabricar o produto. "O governo americano decidiu que os benefícios para as tropas (privando o inimigo de cobertura vegetal) superavam em muito quaisquer riscos¨".

Segundo a autora, o chamado "princípio da equivalência substancial" restringe novas pesquisas, pois finge que as plantas transgênicas são "similares" às convencionais e isentas da necessidade de terem sua eventual toxicidade testada. "Qual será o sergredo da Monsanto atualmente?", completa.