Cacauicultor é exemplo de que vale a pena investir na terra

09/12/2008

Cacauicultor é exemplo de que vale a pena investir na terra

 

O fungo causador da vassourade-bruxa (Moniliophtera perniciosa), praga que praticamente dizimou a cacauicultura no Estado, encontrou uma barreira para seu desenvolvimento através do agricultor Edvaldo Sampaio, que criou na fazenda Nova Esperança, em Nilo Peçanha, baixo sul da Bahia, um conjunto de técnicas que se mostrou eficaz contra o fungo. Batizada de roletamento, a técnica foi considerada por cientistas como a salvação da lavoura, literalmente, e foi adotada por inúmeros cacauicultores. O procedimento era um dos artifícios empregados por Edvaldo Sampaio para combater o fungo nas lavouras de cacau.

O agricultor, que vive exclusivamente do cacau, conta que, quando a vassoura-de-bruxa atingiu as fazendas, nas noites de insônia surgiram várias idéias; uma delas foi o roletamento. Por intermédio dessa técnica, o agricultor conseguia induzir o florescimento precoce do cacaueiro, antecipando, assim, a safra para a primeira metade do ano, justamente o período em que o fungo tem mais dificuldade para se desenvolver e, conseqüentemente, atacar a planta.

O método despertou até o interesse do cientista Gonçalo Guimarães Pereira, líder do projeto genoma da Universidade de Campinas (Unicamp-SP), que tomou conhecimento das técnicas adotadas por Edvaldo Sampaio por meio de uma lista de discussão na internet, a Lista do Cacau, coordenada pelo docente da Unicamp. "Para ele, o mundo inteiro queria fazer e não sabia como. O método é utilizado em muitas culturas como indutor do florescimento precoce, devido ao hormônio giberalina, e apareceu naturalmente o paclobutrazol, alcançando o objetivo maior: controlar florescimento e precocidade. Essa foi uma das etapas", explicou Edvaldo Sampaio.

TÉCNICA - O cientista Gonçalo Martins presenciou o método nas fazendas do agricultor e afirmou que Edvaldo Sampaio havia adaptado uma técnica utilizada no safreiro há 28 anos. "Era a sincronização da produção. O resultado da ação de todas elas com um objetivo: a quebra do ciclo da doença pelos meios naturais. Para que ocorresse, eu modifiquei todos os meus aprendizados do tempo em que trabalhava na Ceplac", ressaltou.

Além do roletamento, passou a realizar, por exemplo, a poda das árvores no período compreendido entre outubro e dezembro, em vez de janeiro a março, como é feito convencionalmente. "Não posso deixar de agradecer à Unicamp pela cobertura científica que me dá através do cientista baiano Gonçalo Guimarães Pereira", ressalta.

Sampaio, diz que já colocou em ação várias práticas. Por conta disso, mudou até o conceito de que o cacau seja uma planta umbrófila, ou seja, que só vegeta e produz na sombra. "Não aconselho a pleno sol, apesar de produzir mais, devido ao aumento da fotossíntese nas épocas de estiagens prolongadas, sem falar no ataque maior de pragas. Para o controle da doença é válido".

INFESTAÇÃO - Na fazenda Nova Esperança, que é muito visitada, o agricultor deixou um galho de eritrina, para servir de aula. "O local produz menos e a infestação é maior", salienta. "Em uma exploração econômica, aqueles arbustos que estão no mesmo nível do cacaueiro devem ser retirados e as árvores mais frondosas devem ser podadas, são as intermediárias, deixando intactas as mais altas", orienta.

Segundo o agricultor, o cacau cabruca é um sistema agroflorestal, onde o cacau plantado respeitou a natureza, debaixo da mata atlântica, sem fazer o desbaste. "Porém, hoje, com as leis ambientais, dificulta sua exploração econômica e aumenta o índice das doenças devido à grande umidade e ao ambiente propício à propagação, apesar de proteger as nascentes que formam o abastecimento da região", ressalta.

Já o bate-folha, de acordo com Edvaldo Sampaio, não é a mesma coisa que a cabruca. O bate-folha levou esse nome porque a pessoa, quando entra na roça, em tempo que não seja de chuva, promove uma zoadinha diferente. "Isso devido à massa foliar que está seca. Tem um precioso benefício para a cultura do cacau. Ela é também alcançada nos modernos plantios e uma roça, para ser considerada boa, tem que ser pelo menos meio bate-folha: conserva a umidade e protege".

PRÁTICA - Edvaldo Sampaio diz que, para efetuar uma poda para a roça se tornar bate-folha, ele ilustra a prática. "É como se dez pessoas estivessem com um guarda-chuva aberto e todos eles se encostavam simbolizando os pés de cacau, e, no espaço vazio, o sol penetrava, o que tem um efeito benéfico sobre o plantio e protege o caule sobre os efeitos nocivos como o ressecamento", explica. Para Sampaio, não existe melhor técnica.

O cacauicultor também obteve êxito com a técnica da reclonagem. Quando sofreu o primeiro ataque da vassoura-de-bruxa, foi convidado para uma aula na Ceplac, mesmo não sabendo nada sobre a doença.

Ouviu os mestres falando que "os clones devem ser plantados em fila para não haver problemas de incompatibilização". Foi a partir daí que misturou tudo de melhor, evitando assim tal problema. E até foi tachado de maluco. "Isso porque misturava 30-40 clones diferentes. Resultado: os meus produziram e fiquei auto-suficiente ", comemora.

Técnicos das áreas federal e estadual, ligados à problemática do cacau, visitaram as fazendas de Sampaio em 2007 e constataram a reclonagem econômica.