Questão é estratégica, mas cooperação ainda é praticamente nula no Mercosul
Apesar de ser um tema estratégico para o Brasil e de o governo brasileiro ter tido um papel ativo na promoção dos biocombustíveis em todo mundo, a integração com a Argentina, principal sócio no Mercosul, é quase zero nessa área. Há alguma cooperação e troca de informações entre as grandes usinas de Tucumã e as de Ribeirão Preto, nada mais. "Cada país tem sua própria legislação e promove com isenções os biocombustíveis produzidos localmente. Sobre isso se pode dizer que não há integração", atesta Cláudio Molina, diretor executivo da AABH.
A Argentina também preferiu ficar fora da Comissão Interamericana de Etanol, promovida pelos governos americano e brasileiro em 2006, liderada pelo governador Jeb Bush, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luis Alberto Moreno, e o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.
Fontes diplomáticas brasileiras explicaram ao Valor que, formalmente, a falta de integração no setor entre os dois governos é causada pela ausência de um acordo-quadro que crie um marco legal para cooperação e a troca de informações a nível oficial. Um acordo desse tipo está em negociação há três anos, mas até hoje não saiu dos gabinetes das chancelarias. Segundo essas fontes, o documento está no momento sob avaliação das consultorias jurídicas.
Mas outras fontes do lado argentino, no setor privado, comentam que há sérias resistências políticas a uma integração com o Brasil na área de biocombustíveis, principalmente na área de etanol de cana-de-açúcar. Os produtores de cana argentinos - politicamente poderosos e aliados do governo Kirchner - nunca aceitaram sequer a entrada do setor no Mercosul, avaliando que não poderiam competir com o Brasil.
As iniciativas de integração em biocombustíveis no âmbito do Mercosul se limitam, até agora, na formação de um grupo de trabalho específico sobre o tema, no fim de 2007. Esse grupo está trabalhando na harmonização de normas da região com as internacionais (americana e européia). O objetivo é transformar os biocombustíveis em uma commodity que possa ser negociada globalmente.