Sem ajuda oficial safra não terá liquidez

29/12/2008

Sem ajuda oficial safra não terá liquidez


O crédito externo secou e a falta de recursos para o financiamento das exportações e para o custeio das safras é hoje a principal ameaça à agricultura brasileira, acredita o professor de Economia Agrícola da Faculdade de Economia e Administração da (FEA) Universidade de São Paulo (USP), Fernando Homem de Melo. Embora os fundamentos para o setor sejam bastante favoráveis, uma vez que a oferta de produtos agrícolas está bastante próxima da demanda no mercado mundial, há um período à frente em que comercialização dos produtos agrícolas pode enfrentar problemas graves. "É bem provável que a disponibilidade de recursos financeiros para o financiamento das exportações nos próximos meses de abril e maio seja insuficiente", declarou.

A falta de liquidez no mercado internacional e no mercado doméstico pode travar o escoamento da safra de verão e desencadear uma crise profunda, com a conseqüente queda dos preços. No caso do milho, o encalhe da safra de verão poderá comprometer o plantio da safrinha e tudo isso resultar no desabastecimento do mercado interno no médio prazo, acrescentou Homem de Mello.

É neste estágio da safra 2008/09 que o governo deverá entrar com recursos, por meio de uma ampla intervenção no mercado do setor. É preciso dar suporte à comercialização da safra para garantir a sustentação dos preços e a renda dos produtores. Sem isso, a inadimplência pode tomar dimensões gigantesca e agravar o quadro atual de endividamento no campo.

Clima de otimismo

Apesar das dificuldades projetadas para o curto e médio prazos, o professor da Fea mantém seu otimismo em relação à agricultura brasileira frente à crise mundial. Para ele, o mercado futuro na BM&F Bovespa indica que o dólar em maio valerá R$ 2,47, o que representa uma desvalorização de 53% do real desde agosto, mês anterior à deflagração da crise financeira mundial.

O real assim tão desvalorizado deverá garantir uma boa renda ao produtor agrícola brasileiro, uma vez que os grãos cotados na Bolsa de Chicago não caíram tanto quanto a moeda brasileira.

Com isso, o bom desempenho da agricultura brasileira, segundo Homem de Melo, depende apenas da liquidez de seus produtos, já que, uma vez comercializada a safra 2009/10 a preços compatíveis com as cotações internacionais, o lucro pela atividade agrícola estará assegurada. Para o professor da FEA, outra fonte de incerteza, além do acesso ao crédito, é o tamanho da recessão mundial e o tempo que ela pode durar.

Esse é o cenário de médio e longo prazo. Mas segundo análise do professor, os mercado tendem a se estabilizar e permitir que as operações se processem a um nível favorável no médio prazo. Os programas de biocombustíveis, apesar de estarem sendo realizados a uma velocidade mais lenta, devem garantir demanda para o produtos agrícolas. A procura por milho, segundo Homem de Mello, deve cair 8,7%, um volume pequeno em relação à dimensão desse mercado.

Tampouco a área de plantio da safra de verão teve a queda expressiva esperada, lembra o professor. Segundo a Companhia Brasileira de Abastecimento (Conab), a área ocupada na safra 2008/09 é até maior que no período anterior, com crescimento de modestos 0,02%. A estatal subordinada ao Ministério da Agricultura, prevê, no entanto, queda de 2,5% no total da safra de grãos neste ano-safra, para 140,2 milhões de toneladas. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, prevê queda ainda maior, de 5%. Stephanes inclui na sua previsão a eventual quebra na produção provocada pela estiagem na região Centro-Sul.

Mas o professor da FEA acha que o importante foi a mudança dos parâmetros do mercado, cuja ênfase agora é o câmbio. Homem de Mello diz que são inúmeros os instrumentos que o governo pode adotar para amenizar as dificuldades imediatas da agricultura. "Poderia, por exemplo, utilizar suas reservas cambiais para acudir a agricultura", disse. "Poderia ainda aplicar uma tarifa especial para os derivados de petróleo de forma a permitir uma redução significativa nos custos das lavouras".

Segundo o professor, essas são medidas pontuais ou emergenciais destinadas a evitar que os efeitos mais danosos da crise financeira internacional chegue ao campo. "É preciso evitar abalar a confiança do agricultor", defendeu.(Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 10)(Isabel Dias de Aguiar)