Queda de área plantada frustra investimentos
Os produtores de algodão que investiram pesado na aquisição de máquinas recentemente gastarão mais tempo para recuperar os recursos aplicados a partir de 2008. A redução de 20% da área cultivada no Brasil deve provocar um índice de ociosidade semelhante no uso das colheitadeiras. Além disso, espera-se que essa queda nas atividades afete indiretamente os investimentos na fase de processamento da fibra e elimine as intenções de novas compras. O investimento médio atual em um módulo para descaroçamento e beneficiamento dos fardos de algodão é de R$ 12,5 milhões, com capacidade para processar 10 mil hectares. A produtividade nacional fica em torno de 1,4 toneladas de pluma por hectare, segundo os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Os 20 mil empregos diretos oferecidos na fase de beneficiamento da fibra também podem ser afetados. No entanto, representantes do setor afirmam que qualquer estimativa antes do final do primeiro trimestre ainda é prematura.
Considerada uma das culturas mais caras, a cotonicultura tem ainda como sua característica as máquinas de uso exclusivo, impedindo a amortização de custos na rotatividade com outras lavouras. A estimativa da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) é que a frota de colheitadeiras seja de 1,66 mil unidades, uma média de uma para cada 600 hectares na comparação com a safra passada. O custo de cada máquina nova é de US$ 350 mil.
Andrew MacDonald, consultor da Abrapa, lembra que o impacto da queda na atividade do setor não pode ser calculada de forma direta sem levar em conta variáveis como a depreciação das máquinas e o volume de produção. "É certo que o impacto será sentido no custo, mas dependendo do volume de produção isso pode ser diluído". Ele acrescenta ainda que cerca de 50% das máquinas utilizadas no beneficiamento são da década de 1980.
"Nos estados produtores, o nível de ociosidade também será proporcional à queda de área. Sabemos que o impacto da recessão no setor é muito rápido, mas só poderemos avaliar melhor a situação daqui a quatro meses", explica Haroldo Cunha, presidente da Abrapa. Ele observa que os preços no mercado interno serão melhores nos próximos meses por causa do dólar valorizado. "A mercadoria importada fica mais cara e favorece as vendas internas", completa.
A disposição do governo federal em combater a crise com o Prêmio Equzalizador Pago ao Produtor (Pepro) é apontada por João Carlos Jacobsen, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), como essencial para a sobrevivência do setor. "Os recursos para comercialização já estão incluídos no orçamento e isso vai ajudar muito o setor", avalia. Cunha revela que o objetivo da Abrapa é conseguir R$ 800 milhões para o Pepro em 2009. "Pelo menos R$ 700 milhões estão garantidos", completa.
Na Bahia, a queda de área é estimada em 280 mil hectares, queda de 7% com o totalcultivado no ano passado. A produção deverá atingir 430 mil toneladas de pluma. A região foi a que mais recebeu investimentos nos últimos anos, porém Jacobsen explica que a situação dos produtores na região é boa. "A maioria que investiu estava capitalizado. Acredito que vamos conseguir passar pela crise sem maiores problemas". Ele disse que a maior dificuldade é encontrar compradores para máquinas usadas. Segundo informou, a situação pode ficar complicada para quem comprou por meio de financiamento. "Mesmo assim, a carência é de 1 a 4 anos e o impacto não será grande".
Em Mato Grosso, onde a redução de área é estimada em 30% em relação aos 541 mil hectares de 2008, os investimentos estão parados. João Luiz Pessa, ex-presidente da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa) e produtor em Primavera do Leste, acredita que este ano será ruim para quem investiu em máquinas.