Crise reduz PIB do agronegócio com queda de 0,88% em outubro de 2008
Após dois anos em expansão, o PIB (Produto Interno Bruto) do agronegócio entrou no vermelho, invertendo a tendência de crescimento iniciada em julho de 2006. Estimado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP), o PIB do agronegócio caiu 0,88% em outubro de 2008, após um ano de taxas mensais acima de 0,80%. O último resultado negativo registrado pela CNA/Cepea foi de -0,148%, em junho de 2006. Segundo a presidente da CNA, senadora Kátia Abreu, tais resultados levam a uma projeção de R$ 685 bilhões até outubro de 2008.
"Os efeitos da crise mundial no agronegócio puderam ser dimensionados concretamente a partir de outubro", disse Kátia Abreu, citando os prejuízos sofridos pelas lavouras, fortemente atingidas pelo recuo dos preços. A queda de 1,42% do PIB do agronegócio da agricultura, em outubro, está ligada à queda dos quatro segmentos do setor, especialmente das atividades dentro da porteira, que registrou decréscimo de 2,20%. Mas, no acumulado de janeiro a outubro, a taxa é positiva, de 5,81%. O agronegócio da pecuária, apesar de também apresentar desaceleração, cresceu 0,44% em outubro, acumulando elevação de 8,56% no ano.
Segundo a senadora Kátia Abreu, o desânimo dos produtores rurais diante do quadro de crise afetou a compra de insumos para a produção agropecuária, invertendo o desempenho apresentado durante o ano. Após nove meses de crescimento sempre acima de 1%, chegando a ultrapassar 2% em alguns momentos, os insumos agropecuários apresentaram queda de 0,47%, em outubro, acumulando no ano elevação de 17,07%. Os insumos da agricultura tiveram o pior desempenho, com queda de 0,80% em outubro, embora acumulem elevação de 20,24% no ano. Os insumos da pecuária desaceleraram ainda mais no mês, com crescimento de apenas 0,10%. "O resultado do segmento de insumos, em outubro, reflete o baixo desempenho em termos de volumes comercializados, mas os preços seguem elevados", afirmou a presidente da CNA.
O pior desempenho entre os segmentos do agronegócio ocorreu nas atividades dentro da porteira, que registraram queda de 0,95%, em outubro, após nove meses de expansão, que resultaram em crescimento de 12,49% no ano. O segmento primário da agricultura encolheu, com taxa negativa de 2,20%, contribuindo fortemente para esse fraco desempenho. "Houve desaceleração tanto no volume quanto nos preços agrícolas", explicou a senadora Kátia Abreu. O crescimento do volume médio anual das lavouras foi de 6,46%, em outubro, contra 9,26% em setembro, enquanto os preços registraram taxa de 10,99%, frente aos 12,89% de setembro.
Essa desaceleração verificada nos segmentos da produção primária e dos insumos ocorreu também no segmento industrial do conjunto do agronegócio, que apresentou taxa negativa de 0,96% em outubro, repetindo os resultados negativos dos dois meses anteriores. A queda mais acentuada ocorreu na indústria agrícola, de 1,10%, pesando fortemente sobre o resultado negativo de outubro. O segmento da agroindústria vegetal, principal responsável por esse mau desempenho, caiu de -0,6%, em setembro, para -1,10% em outubro, atingindo a taxa de 0,75% no acumulado do ano. Apenas as indústrias de celulose e óleos vegetais apresentaram taxas positivas em outubro.
RECEITAS DAS EXPORTAÇÕES DO AGRONEGÓCIO DEVEM CAIR
Os bons resultados das exportações do agronegócio em 2008 não deverão se repetir em 2009 devido ao impacto da crise econômica mundial nos preços dos produtos agrícolas. As receitas em dólar das exportações do setor, que deverão fechar 2008 ao redor de US$ 72 bilhões, têm grandes chances de serem reduzidas neste ano, devido aos menores preços de exportação para os principais produtos do setor. Ainda assim, graças a um câmbio mais favorável desde outubro do ano passado, as receitas em reais não deverão sofrer tanta variação.
As exportações do agronegócio acumularam US$ 67,0 bilhões, de janeiro a novembro de 2008, o que representa alta de 24,6% com relação ao mesmo período do ano passado. Esse valor é significantemente maior que as importações do setor, que acumularam US$ 10,9 bilhões nos 11 primeiros meses do ano, sinalizando uma expansão dos resultados da balança comercial do agronegócio para mais de US$ 60 bilhões, em 2008, o que compensa o forte déficit comercial dos outros setores da economia.
Mas, as previsões para 2009 não são tão otimistas. Cálculos preliminares da Secretaria de Relações Internacionais (SRI) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) indicam que, provavelmente, o setor reduzirá suas exportações neste ano. Os seis cenários indicados pelo MAPA podem ser agrupados em três expectativas - otimista, pessimista e mais provável – mas todas apresentam queda das exportações do agronegócio em 2009.
No cenário otimista, a queda seria de 6,8%, fechando o ano com US$ 67,1 bilhões. No cenário pessimista, a queda seria de 34,7%, resultando em US$ 47 bilhões em exportações. Não obstante, estes dois cenários dependem de uma conjunção de fatores econômicos que, até o momento, podem ser considerados improváveis. O cenário mais provável indica, portanto, queda de 21,6%, levando as exportações do agronegócio a atingir US$ 56,4 bilhões, em 2009, frente aos US$ 73 bilhões esperados para 2008.
É importante destacar que as previsões do MAPA confirmam que os fundamentos dos mercados agropecuários internacionais continuam favoráveis. Significa que, para o Executivo, a demanda na Ásia seguirá aumentando – ainda que em ritmo menor – a produção dos biocombustíveis continuará afetando a definição dos preços dos produtos agrícolas e os estoques permanecerão apertados.
O grande diferencial entre os cenários previstos para 2009 é a indefinição dos preços. Enquanto a visão otimista aposta em preços tão altos quanto os observados em novembro de 2008, a estimativa pessimista acredita que a crise mundial levará os preços a patamares similares aos da média dos anos 2003 a 2007. Assim, o cenário mais provável simula preços similares aos da média de 2007, com base na expectativa de que os preços internacionais recuarão, mas não voltarão aos níveis históricos.
Cabe ressaltar, ainda, que embora as três previsões indiquem queda das receitas em dólar das exportações do agronegócio, as receitas em real não deverão ser tão afetadas, tendo em vista a apreciação do dólar nos últimos meses. Na hipótese de um dólar médio de R$ 2,20, em 2009, o cenário mais provável indica receita de R$ 124,1 bilhões, o que representaria um queda de apenas 6,3% frente à receita de R$ 132,5 bilhões estimada para 2008. Com base em um dólar médio de R$ 2,50, em 2009, as exportações do agronegócio gerariam receita de R$ 141 bilhões, 6,4% maiores que em 2008.
FONTE
Agência CNA