A comercialização da safra anterior sofre com a crise

02/03/2009

A comercialização da safra anterior sofre com a crise

 

 

O empresário produtor rural Walter Yukio Horita concedeu entrevista exclusiva à repórter Rosiane Donato, da sucursal A TARDE em Barreiras, sobre os reflexos da crise financeira no agronegócio, os principais efeitos da crise na agricultura, o momento econômico no agronegócio da região e as projeções a partir de agora. Para ele, a cultura mais afetada foi a do algodão, que reduziu a área plantada, mas o impacto maior foi a falta da liberação do crédito para o plantio e a queda dos preços das commodities.

A TARDE De que forma o agronegócio foi afetado com a crise mundial e quais os impactos sobre a região oeste?
Walter Horita | De forma geral, ninguém passou imune à crise, todos foram afetados, alguns setores mais, outros menos. Nosso segmento foi afetado mais em função da redução da oferta de crédito para o setor agrícola. Com a falta do crédito, o custo aumentou; se o os juros eram cobrados em torno de 9% a 10% ao ano, passou para 12% a 14% ao ano. Isso aconteceu em setembro do ano passado, quando a crise se deflagrou após a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers. Eu tinha liberações de crédito para aquela semana, mas parou tudo, veio acontecer só em meados de outubro e novembro. A ordem da casa matriz dos bancos era parar todas as liberações por conta da quebra do banco norte-americano, que era considerado forte. Nessa época se falava que o produtor não iria plantar, que a área seria reduzida em torno de 30% a 40%, mas isso não aconteceu. O Mato Grosso reduziu 30% da área de algodão, mas não quer dizer que ficou a área sem plantar. No oeste, a redução foi também do algodão, de 293,455 ha para 282,142 ha, um total de 3,9% de redução, já a soja aumentou 2,5%, e o milho manteve.


AT | O que isso representa?
WH Se pegarmos a área de produção total dessa safra 2008/09 em relação a 2007/08, não houve redução; isso não quer dizer que não houve crise e que não fomos afetados. Houve redução de tecnologia, de fertilizantes, e, com isso, é provável que se reduza a produtividade. Não é apenas a tecnologia que garante; o clima é o principal. A tecnologia é uma ferramenta para melhorar, mas, se não chover 30, 40 dias, acabou. Não adianta usar recursos tecnológicos. Mas é preciso que continue chovendo até parte de abril, o suficiente para garantir uma boa produção durante a colheita.

AT | Com o crédito escasso, quais as alternativas?
WH Sempre falo que não apenas o agricultor, mas o brasileiro é muito criativo e, com a falta de crédito do banco, acabou negociando com o fornecedor, dentro das possibilidades que ele pôde fornecer, trocando a tecnologia, reduzindo a quantidade de fertilizantes, pagando parcelado, para reduzir os custos.

AT | Com a falta de consumo do algodão, quais as medidas tomadas para não se ter prejuízos com esta cultura?
WH O governo tem proporcionado muitos mecanismos, e tem ajudado muito neste momento. É possível conseguir a liberação de algum tipo de crédito para comercialização, como, por exemplo, o Empréstimo do Governo Federal (EGF), ou então a política do crédito de comercialização, que permite esperar um tempo para que o produto não seja vendido a qualquer preço. Porque quando o mercado quer comprar e você o força a comprar, você joga o preço para baixo, isso piora ainda mais. Mas agora já voltou a fluir, a comprar... não como antes, mas já melhorou.

AT | Como o senhor vê a região oeste neste momento?
WH Eu vejo a região oeste com certo otimismo, porque a soja, o milho, o café... é possível colher e armazenar, usando empréstimo, o fundo de garantia. O problema é na região do Vale do São Francisco. O produtor de frutas, de manga e uva, vive de exportação, principalmente para Europa. Quando se para de comprar, não há como armazenar, ou vende ou a fruta apodrece. O problema deles, gerado pela crise, foi o desemprego. Mas aqui, o nosso setor está no regime de normalidade, não houve demissões.

AT | Quais as projeções agora?
WH O que pode vir a acontecer é uma incógnita: se o mundo vai continuar consumindo ou não. Como a produção começa a partir de março, abril, o efeito que estamos sentindo, com exceção da questão do plantio, é que a comercialização da safra anterior já sofreu os efeitos da crise. O produtor normalmente segura uma parte da safra para vender na entressafra, período de setembro a janeiro, é o tempo dos melhores preços, mas este ano não aconteceu. Justamente na entressafra, aconteceu a crise. Isso fez com que os preços internacionais das commodities caíssem. O algodão caiu pela metade, entre 40% e 50%; a soja e o milho caíram 30%.

AT | Quais as dificuldades com o escoamento da safra em função das estradas da região?
WH A estrada não está tão ruim. Mas há o problema de estradas vicinais, as que não são asfaltadas e ficam a 30 km, 40 km da BR. Como trafegam caminhões pesados, depois de uma chuva, acabam com a estrada; esse trecho é o pior. Outro dia, eu tive que cancelar uma venda porque a estrada estava intransitável. Isso encarece nosso trabalho.

AT | A crise na pecuária gerada pela seca na Argentina pode favorecer a região?
WH Pode favorecer não apenas o gado, mas também a produção da soja.