Algodão sequer está na pauta de Lula e Obama
O governo brasileiro errou ao tentar usar a Rodada de Doha para resolver o contencioso do algodão, em vez de fazer o contrário, usar a vitória na Organização Mundial do Comércio (OMC) para pressionar os americanos em Doha. "Tecnicamente, o governo fez tudo certo no processo do contencioso, como no pedido de retaliação na OMC. Mas errou politicamente ao querer resolver o problema na Rodada de Doha, na esperança de que ela seria concluída", avalia Pedro de Camargo Neto, que ajudou articular, dentro do Ministério da Agricultura, como secretário de produção e comercialização, o processo contra o subsídio americano ao algodão.
Ele critica também o fato o algodão não estar na pauta do encontro do presidente Lula com o líder americano Barack Obama, no próximo sábado. "Lula vai discutir a aproximação com a Venezuela, o fim do embargo a Cuba, até o caso do menino Sean (cuja guarda é questionada na Justiça pelo pai americano e pelo padrasto brasileiro). Mas até agora eu não ouvi que o subsídio americano ao algodão está na pauta", indigna-se Neto.
Ele defende que o Brasil use o argumento de que os subsídios americanos geram fome na África (que também concorre na produção de algodão) para tocar a opinião pública americana para o tema. "Os cidadãos dos EUA têm que saber que seu dinheiro está sendo usado para prejudicar os países pobres".
De acordo com dados do Departamento de Agricultura dos EUA, os subsídios ao algodão americano foram de US$ 12,5 bilhões, entre agosto de 1999 e julho de 2003. No mesmo período, o valor da produção americana foi de US$ 13,9 bilhões, o que significa que os subsídios representaram 89,5% do total.