A rastreabilidade da carne

16/03/2009

A rastreabilidade da carne

 


No mercado internacional da carne bovina, a exclusão ou embargo a um dos fornecedores, como é o caso do Brasil, produz movimentações em toda a cadeia do negócio. Um caso típico ocorreu após o embargo da União Europeia (UE), quando a Suíça também procedeu da mesma forma e estava criada a crise da Cervela - a linguiça nacional da Suíça - que precisa de tripa de zebuíno para sua fabricação.

Sem o Brasil, a crise da Cervela chegou quase a inviabilizar a fabricação da linguiça nacional Suíça. Felizmente, o Paraguai se credenciou como país livre de febre aftosa com vacinação, tem hoje um sistema de rastreabilidade e resolveu o problema dos suíços, conquistou um mercado, antes atendido pelo Brasil, e está credenciado para exportar para o Chile e a UE.

Enquanto isso, o Brasil espera a resposta da auditoria da União Europeia sobre os novos rumos do Sisbov. Nosso maior consumidor até 2007, a UE continuará fazendo exigências de equivalência de processos de rastreabilidade da carne bovina brasileira para importar novamente. Precisamos criar, sim, o nosso próprio sistema de certificação, mas o que estamos fazendo é mais do que outros países do Cone Sul estão praticando.

A UE quer equivalência com o sistema de rastreamento europeu, baseado no controle individual dos animais. Não estão impondo o que está sendo feito por eles, mas quer um sistema individual de identificação como base em um sistema robusto de controle, que permita fazer o estudo retrospectivo dos produtos disponíveis nas gôndolas dos supermercados, até as propriedades onde foram produzidos, mas não uma certificação de propriedade nos moldes exigidos pelo Sisbov.

Em abril de 2008, os inspetores da UE auditaram o Paraguai, analisaram a estrutura do setor, as bases regionais, os postos de controle, propriedades de gado e laboratórios, assim como a área dos frigoríficos, visando certificar as exportações paraguaias para os países da UE, que foram suspensas pelas próprias autoridades locais no final de 2002 devido a focos de febre aftosa; esta auditoria concluiu que existiam fundadas evidências científicas da ausência de circulação do vírus no Paraguai. E, hoje, o país apresenta um sistema de rastreabilidade com mais de 600 mil animais inseridos no banco de dados. Os produtores credenciados para exportar para a UE e Chile estão sendo premiados com US 5/@, percorrendo o caminho de adaptação às exigências mundiais de rastreabilidade com um modelo mais simples que o sistema brasileiro e negociado de forma mais real que o Sisbov.

Deve ser salientado que o Paraguai baseou seu sistema fundamentalmente no princípio da equivalência para responder à demanda da UE.

Em todos os países analisados, somente a Argentina tem definições de princípios de certificação de propriedade no conceito de definição de protocolos de procedimentos. Nos outros, o registro da fazenda e os dados do produtor são o suficiente para dar andamento ao processo, o número de animais a serem vistoriados por fazenda não está definido de forma rígida e não se configura uma amostragem estatística no rebanho.

O sistema mais evoluído seguramente é do Uruguai, onde se utilizam brincos eletrônicos auriculares que são subvencionados pelo governo, os deslocamentos estão em parte sendo monitorados por GPS, e a meta de ter todo o rebanho no sistema deve ser atingida este ano (12.000.000 cabeças aproximadamente). Em 2010, a meta é ter a rastreabilidade do animal até os cortes a partir do frigorífico e colocados na gôndola para o consumidor final.

O Chile, importador de carne, tem seu sistema de rastreabilidade em andamento com cerca de dois milhões de cabeças visando ser exportador para mercados de alto valor agregado.

O potencial destes países é de 80 milhões de cabeças, concorrentes sim, do espaço que deixa de ser ocupado pelo Brasil.

O nosso processo de rastreabilidade, seja qual for a solução, precisa ser desburocratizado. Também é preciso criar um sistema de premiação ao pecuarista e, assim, certamente veremos como os produtores vão aderir ao sistema de forma voluntária.

Continuamos acreditando que a certificação de uma propriedade agrícola deve ser a saída no futuro para certificar origem, qualidade ou processos para diferentes sistemas de produção, garantindo a sanidade, a qualidade, a segurança alimentar e a rastreabilidade dos animais. Contudo, a inclusão de nossos animais no sistema de rastreabilidade é a primeira etapa do processo e a certificação da propriedade e de procedimentos é o segundo passo que deve ser definido sobre critérios variáveis para os diferentes sistemas de produção e a heterogeneidade dos sistemas de gestão da pecuária brasileira.