Ontem, a aftosa; hoje, a baixa do preço do boi
Quando não é uma coisa, é outra. A pecuária de Mato Grosso do Sul em geral, e a de Dourados em particular, estavam se recuperando aos poucos do baque causado pela descoberta, em outubro de 2005, de focos de febre aftosa no Estado. Em julho de 2008, Mato Grosso do Sul voltou a figurar entre os que têm o status de área livre de febre aftosa com vacinação, carimbo necessário para a reconquista de mercados no exterior.
Mas a retomada do status ocorreu em um momento de queda dos preços do boi gordo no mercado doméstico. Veio a crise, começou o cerrar de portas dos frigoríficos, de especial crueldade para a pecuária do Estado: em Mato Grosso do Sul, 18 frigoríficos credenciados para exportação, ou 48% do total, estavam com a produção suspensa na semana retrasada.
A tentativa mais enfática de recuperação da pecuária no Estado era compendiada pelo retorno ao status de área livre de aftosa com vacinação, mas ainda havia chão a percorrer. Dourados tinha 204 mil cabeças de bovinos em seu território no encerramento de 2007, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse plantel era mais de 27% inferior ao ápice da década, de 281,4 mil cabeças em 2002, e o mais mirrado desde 1984, ano em que foram registrados 171,8 mil animais, de acordo com os dados oficiais.
"A queda de preço foi grande. Atrapalhou todo mundo", diz o pecuarista Gino José Ferreira. "Mas eles [os frigoríficos] vão voltar ao abate", fala, "eles vão voltar", e repete, em declaração que soa mais como esperança e menos como ciência da real situação financeira de cada frigorífico. Como Dourados, Mato Grosso do Sul perdeu rebanho nos últimos anos, mas em escala menor: o plantel de 21,8 milhões de cabeças de 2007 era 12% menor que o pico da década, de 24,9 milhões contabilizado em 2003, e não descia a esse nível desde 1999.
Ferreira, também vereador em Dourados pelo DEM, foi quem pediu a outorga de situação de emergência para o município. A requisição, ocorrida por conta da estiagem ocorrida entre novembro e dezembro em boa parte da região sul de Mato Grosso do Sul, foi publicada no Diário Oficial da União em fevereiro. Foi a segunda vez na década que Dourados entrou em estado de emergência - a anterior, em 2005, também foi motivada pela secura nas lavouras.
Peça um bife em Dourados. Em contraste com erva-mate, algodão, café, hoje inexistentes em suas terras, é possível que o gado do mal-passado tenha sido criado lá. Mas, entre febre aftosa, queda de preço, fechamento de frigoríficos, diminuição de rebanho e estiagem, foi a duras penas.