Os heróis da resistência
Depois de fechar o ano passado praticamente no vermelho, os produtores de mamão do extremo sul do Estado estão otimistas com o preço da fruta no mercado interno. Em novembro de 2008, o quilo da fruta estava entre R$ 0,20 e R$ 0,30 e hoje custa de R$ 1 a R$ 1,50. Isto porque houve queda na produção de 50% – poucos produtores resistiram à crise. “Estamos bastante otimistas, pois nem dava para pagar as contas direito”, afirma o diretor da empresa Bello Fruit (produtora de mamão), Ulisses Brambini.
Produzindo cerca de 70 toneladas de mamão por dia (25 toneladas do tipo golden, 25 toneladas do belomosa e 20 toneladas do tipo formosa), a Bello Fruit está enviando suas frutas para as redes de supermercado do Sudeste e Sul do País, como Carrefour, Pão de Açúcar, Casas Sendas, Irmãos Mofado e Angeloni.
A empresa já mantinha negociações anteriormente com estas redes e, após a crise financeira mundial, os contatos foram intensificados, pois houve uma redução nas importações de mamão, sobretudo por parte dos Estados Unidos, para quem a empresa não vende desde agosto.
CORTES – Para a Bello Fruit conseguir manter as vendas, explica Brambini, foi preciso também fazer cortes de funcionários. As reduções começaram há oito meses, quando havia 480 funcionários.
Em novembro, foi para 300 e hoje está com 238.
“Se continuar no embalo em que estamos, em seis meses podemos voltar com nossos 480 funcionários tranquilamente”, disse o diretor da Bello Fruit, empresa com sede no distrito de Itabatã, a 6 km de Mucuri (975 km de Salvador). “Por enquanto, o momento é de vender e recuperar as perdas, o que já estamos conseguindo fazer”, observou.
A BS Frutas, empresa produtora de mamão em Teixeira de Freitas (813 km da capital baiana), também está animada com o aumento do preço da fruta no mercado interno, já que a empresa não trabalha com exportações para outros países. “No final do ano passado, estávamos vendendo a fruta por até R$ 0,30 o quilo.
Hoje, está sendo vendido até por R$ 1,20”, disse o gerente administrativo da empresa, Sérgio Hilário Soeger, hoje com uma produção diária que varia entre 50 e 60 toneladas.
A área plantada (nas variedades papaia e formosa) é 400 de hectares, sendo que o mamão papaia está em 80% da fazenda da BS Frutas, e abastece mercados do Sudeste e Sul do País.
A Secretaria da Agricultura do Estado (Seagri), no entanto, aponta outros preços para o quilo do mamão formosa, que, em Salvador, do dia 2 a 10 deste mês, permaneceu em R$ 0,80; em outubro do ano passado estava a R$ 1. A variedade formosa B, na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), em outubro, estava custando R$ 22,89 a caixa de 21 kg e hoje está a R$ 17,85. A caixa de 7 kg do mamão havaí, também na Ceagesp, foi o único que teve melhora de preço, desde outubro, segundo dados da Seagri.
Custava R$ 6 e hoje custa R$ 10.
EXPORTAÇÃO – Por causa da crise financeira internacional, a expectativa de incremento nas exportações de frutas em geral é só no segundo semestre deste ano.
“O momento é de olhar o mercado interno”, observa o gerente de estudos e informações da Promo – Centro Internacional de Negócios da Bahia, ligado à Secretaria Estadual de Indústria e Comércio, Arthur Souza Cruz.
Segundo o Promo, apesar de crescerem em relação a janeiro, as exportações baianas tiveram queda de 19,5% em relação ao mesmo período de 2008.
Semelhante quadro foi registrado nas importações que tiveram um leve aumento em fevereiro, 0,8% em relação a janeiro, e queda de 67%, comparado ao mesmo mês de 2008.
“Estamos vendendo para a Europa (França, Alemanha, Espanha e Inglaterra). Da nossa produção diária, estamos exportando apenas 5%”, informou o diretor-presidente da empresa, Orlando de Oliveira.
Um fator que tem favorecido atualmente, explica Oliveira, é o arrendamento de terras, que estava custando R$ 622 o aluguel de um alqueire (cinco hectares, onde se planta, no máximo, oito mil pés de mamão) e hoje está a R$ 415. “Isso aconteceu porque estava havendo muita procura para plantar eucalipto, e aí os produtores colocavam preços altos, mas, como as empresas de eucalipto não estão procurando mais, eles baixaram os preços”, disse, informando que está com cerca de 450 hectares de terra, sendo que 70% delas estão no extremo sul e o restante no norte do Espírito Santo.
APROVEITAMENTO – A Bello Fruit perde, por dia, de duas a três toneladas de mamão, que, se houvesse como, poderiam ser aproveitadas para se fazer o beneficiamento, com a produção de doces, rapaduras, compotas e outros alimentos.
O diretor da empresa, Ulisses Brambini, disse que já conversou várias vezes com o poder público local para se fazer uma parceria com a empresa, visando pequenos produtores e pessoas que estão sem trabalho.
“São mamões com um risco pequeno, uma pinta, ou estão levemente machucados. Eles não servem para exportação e o que acontece todo dia é que eles vão para criadores de porcos e de galinhas.
Poderiam ser melhor aproveitados se houvesse uma associação ou cooperativa de trabalhadores”, disse, informando que vende o mamão não aproveitado a R$ 0,15. “É um preço de produção mesmo, simbólico”.
O diretor do departamento de Agricultura de Mucuri, Jair Gustavo Bittencourt Garcia, estava em Salvador na semana passada, mantendo contatos com a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) e com a Superintendência de Agricultura Familiar (Suaf), para saber o que poder ser feito para a região, visando à criação de cooperativas.
“Estamos com projetos sendo elaborados e precisamos ter apoio do Estado para eles serem concretizados, pois sozinhos não temos como”, afirmou.