Práticas sustentáveis rendem taxas de juros mais baixas
As instituições financeiras no Brasil parecem estar mais preocupadas com os aspectos ambientais no momento de conceder crédito. Pesquisa feita pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) em 2007 aponta que 65,4% dos 26 principais bancos do País avaliam esses quesitos antes de aprovar financiamentos. O banco holandês Rabobank, que há 20 anos atua no Brasil, e desde 2005, com clientes rurais, criou critérios de classificação sócio-ambiental e chega a conceder desconto de até 5% na taxa de juros aos clientes localizados nos níveis mais altos de sustentabilidade.
Com 110 anos de história, o banco começou a criar uma diretriz regional no Brasil em 2005, por conta da entrada de produtores rurais na carteira do banco - que antes era composta por outros agentes do agronegócio, sobretudo agroindústrias. "Quando decidimos financiar produtores, surgiu o questionamento sobre como estimularíamos esses clientes a avançar nesse quesito", conta Daniela Mariuzzo, responsável pela área sócio-ambiental do Rabobank. O banco não queria sua imagem vinculada a produtores que desmatam florestas ou não cumprem leis trabalhistas.
E, para o Brasil, os critérios de exclusão e qualificação dos clientes estão diretamente relacionados a práticas que envolvem o desmatamento e as condições de trabalho. "Não tem sentido, por exemplo, aplicar esse critério em países onde não há floresta", justifica. Assim, após a definição dessas diretrizes locais, o primeiro passo foi compilar as legislações ambiental e trabalhista no País e, criar uma cartilha com linguagem didática. Os funcionários do banco começaram a ser treinados e um projeto-piloto, desenvolvido. A política socio-ambiental foi construída a partir de discussões com ONGs e aprovada em julho de 2006.
A ferramenta para medir o nível de sustentabilidade se baseia no preenchimento pelo cliente de um questionário sobre práticas ambientais e sociais, que depois é checado in loco por um funcionário do banco. Após essa checagem, o produtor é avaliado e enquadrado em uma escala de classificação vai de zero até 40, sendo o zero, o melhor nível de risco. "Essas visitas do banco são anuais, assim como a atualização da classificação".
Desde 2005, houve avanço importante no nível de sustentabilidade dos clientes, segundo Daniela. Naquele ano, 4% da carteira estavam classificados no nível "ruim", percentual que no ano seguinte foi de 3% e, desde 2007, é nulo. Ainda, o banco realiza dias de campo onde um produtor "sustentável" serve de exemplo para os outros. "Isso é importante por que esse agricultor mostra como alterou suas práticas, muitas vezes, com procedimentos simples, e conta as vantagens que obteve", acrescenta. Para 2009 estão previstos dois dias de campo, um em Lucas do Rio Verde (MT) e outro em Patos de Minas (MG).
"O lado racional de emprestar dinheiro para um cliente que respeita leis ambientais e sociais é que o risco do banco torna-se menor. Um cliente que polui, por exemplo, pode levar uma multa e, dentro da legislação brasileira, os agentes envolvidos, como os bancos, são co-responsáveis. Ainda, esse cliente pode ser impedido de continuar sua atividade por conta dessas infrações sócio-ambientais e, assim, não conseguir gerar recursos para e deixar de seus credores", argumenta.
Apesar de o programa ter mais de três anos, ajustes ainda estão sendo feitos. No ano passado, o projeto passou por uma auditoria externa e outra interna para avaliar, entre outros pontos, a eficiência das ferramentas . "Tivemos 85% de conformidade. Os outros 15% referem-se a correção de documentação e aprimoramento do treinamento de funcionário".
Recuperação de floresta pode gerar créditos de carbono
As discussões ambientais entre governo, Organizações Não-Governamentais (ONGs) e o setor produtivo no Brasil costumam ser longas, inflamadas e dificilmente resultam em um consenso. O ponto central de divergência fica quase sempre na seguinte questão: quem vai pagar a conta? Dentro desse polêmico contexto, o banco holandês Rabobank começou a desenvolver, em parceria com algumas ONGs, um projeto para estimular a recuperação de áreas desmatadas na região de bioma amazônico.
Em 2008 foi feito um projeto-piloto na região Norte de Mato Grosso no qual o banco investiu R$ 2,5 mil por hectare para recuperar área de 32 hectares pertencentes a diversos produtores rurais da região. "Em 40 anos, essas árvores vão crescer e capturar o carbono na atmosfera. Mas, esse resultado pode ser antecipado por meio do reconhecimento do projeto como Mecanismo de Desenvolvimento Limpo pela Organização das Nações Unidas (ONU)", explica Daniela Mariuzzo, responsável pela área de sustentabilidade do Rabobank. Ela detalha que a partir desse reconhecimento é possível negociar a venda desses créditos de carbono e reverter o recurso, parte para o produtor rural, e outra parte, para um fundo com objetivo de apoiar outros projetos de recuperação de florestas. "Esses créditos podem ser calculados e antecipados", complementa.
Em 2007, a União Europeia, maior mercado comprador de crédito de carbono do mundo, movimentou mais de US$ 50 bilhões, segundo dados do Banco Mundial. A estimativa é que esse volume tenha atingido US$ 75 bilhões em 2008, de acordo com a New Carbon Finance Ecosystem Marketplace.