Sem-terra invadem o CAB
Grupos de sem-terra de nove regiões do Estado invadiram ontem o Centro Administrativo de Salvador (CAB) e montaram acampamento na Secretaria de Agricultura do Estado (Seagri), para exigirem o cumprimento de acordos realizados com o governo estadual em abril de 2007. Cerca de duas mil pessoas chegaram de ônibus ontem pela manhã, em frente ao prédio do órgão, de onde pretendem sair somente depois da garantia de realização de alguns pedidos, como a aceleração no processo de desapropriação de terras, construção e reforma de casas, infra-estrutura para os assentamentos, créditos para agricultura familiar e assistência técnica. Além de tomarem as dependências da Seagri, outro grupo de 800 famílias de sem- terra invadiu uma área pertencente a empresa Veracel, em Eunápolis, extremo sul da Bahia. No órgão, os sem-terra foram recebidos pelo secretário Roberto Muniz que prometeu agilizar os pedidos referentes a Seagri e articular as solicitações ligadas as outras pastas do governo.
A sombra das árvores virou ponto de acomodação para dormidas, a copa das plantas – varal de roupas, as pias dos banheiros – lavanderias e o pátio – local de refeição, vendas de sorvete e lanches. O mesmo espaço ainda serviu de protestos e cantorias com o uso de violões e do microfone do carro de som. Esse foi o cenário em que se tornou a Seagri com a presença de grupos do MST ontem. Com lonas, barracas, colchões, redes, mochilas e sacolas, os sem-terra se espalharam pela grama e se alojaram na recepção e parte do térreo da Seagri. Os manifestantes cozinharam, armaram bancas para vendas e deitaram em torno do jardim da secretaria.
Somente nos primeiros meses do ano, os sem terra já promoveram mais de 50 ocupações em todo o Estado. Até a próxima sexta-feira, eles pretendem ocupar mais dez terras. As reivindicações se unem a mobilização pelo Abril Vermelho, que relembra o massacre de Eldorado dos Carajás. Em todo Estado existem 25 mil famílias acampadas a espera de assentamento. As regiões com maior quantidade de acampamentos são a Chapada Diamantina, Nordeste, Norte, Sudoeste e Baixo sul. "Não existe reforma agrária na Bahia.
Temos o maior número de acampamentos do país e vivemos sob muitos conflitos. Nos últimos dois anos não foram assentadas nem mil famílias, o que é um absurdo. Não temos dúvida do comprometimento do governador Wagner, mas a sua equipe de governo não consegue traduzir isso em ações. Pelo ambiente político em que vivemos atualmente, a esperança era de que a reforma agrária avançasse muito mais por aqui", protestou o diretor do MST, Márcio Matos.
Segundo Matos, a idéia da manifestação tem o objetivo de chamar a atenção do governo para uma revisão dos acordos feitos com MST há dois anos, quando milhares saíram em marcha de várias regiões do estado. "A pauta é extensa e nós estamos aqui preparados para ficar o tempo que for preciso", ressaltou. No grupo de duas mil pessoas estavam acampados das cidades de Queimadas, Itiúba, Quijingue, Santa Luz, Teixeira de Freitas, Itamaraju, Monte Santo, Gaviões, entre outros municípios.