Sem-terra na Assembleia hoje
Apesar dos avanços nas negociações com as secretarias do governo, os manifestantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) ainda permanecem acampados em frente a Secretaria de Agricultura do Estado (Seagri), CAB. Após denúncia na edição de ontem da Tribuna da Bahia, relacionada a bandeira do movimento colocada no mastro da Secretaria, eles retiraram o símbolo e transferiram para as árvores. Hoje os milhares de sem-terra pretendem invadir o plenário da Assembleia Legislativa, onde serão homenageados às 10 horas em uma sessão especial, pelos 25 anos do Movimento. Ontem eles tiveram audiência com representantes das secretarias de Relações Institucionais, de Planejamento e de Desenvolvimento e Integração Regional do Estado. Os pedidos dos sem-terra são variados e incluem até mesmo recursos para participações em congressos e brinquedo tecas.
A pauta é extensa e incluí reivindicações específicas para as diferentes secretarias do Estado, a exemplo de construção e recuperação de casas e escolas, regularização de professores e escolas dos assentamentos, computadores, assistência técnica, sementes para plantação, energia elétrica, abastecimento de água, inclusão em programas do governo estadual e federal Pronaf, entre outros. Desde o dia em que chegaram a Seagri, o secretário Roberto Muniz tem atuado como articulador das demandas com as outras pastas. É ele quem dirige as reuniões com as outras secretarias do governo.
Em reunião com o secretário de Educação, Adeum Sauer anteontem, os sem-terra conseguiram a garantia de construção de oito escolas para os assentamentos de Mucuri, Alcobaça, Iramaia, Barra do Choça, Boa Vista do Tupim e Água Fria. Os processos de licitação serão feitos a partir de maio, com início das obras para junho.
Segundo a assessoria de comunicação da Seagri, alguns acordos foram fechados para 2010 com alguns órgãos do governo, a exemplo da Secretaria de Educação que deve incluir no orçamento do próximo ano a construção de duas escolas pólo com capacitação em agroindústria. Além disso, ficou acordado que algumas pessoas sejam preparadas para levarem o Topa – programa de alfabetização para os assentamentos.
Com isso, até agora foram definidos R$8 millhões para construção de casas pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e a implantação de uma política de facilitação dos assentamentos – reforma agrária. No entanto, para o MST, as conquistas ainda são insuficientes. "Precisamos de algo concreto. Além disso, existem muitas outras questões. Esperamos hoje ter um avanço ainda maior. Aí sim teremos uma definição sobre a nossa saída daqui", disse Márcio Matos, da direção estadual do MST.
Ao redor do prédio da secretaria, os sem-terra colocaram várias faixas com mensagens educativas e de protesto. Algumas fazem referência a freira assassinada no Pará: "Irmã Dorothy vive em cada um de nós". Outra se refere ao campo: "Abaixo o agronegócio que destrói a vida no campo".
No quarto dia de acampamento na Seagri, mulheres e crianças já demonstram cansaço. "Muitas crianças estão começando a ter diarréia. Temos que comprar água de beber toda hora e o dinheiro já está acabando", conta Maria Santos da Conceição,24 anos, segurando o bebê de 1 ano.
Apesar de já ser assentada no município de Iguaí, sudoeste baiano, Conceição afirma que é preciso estarem todos juntos na luta. "Estamos assentadas, mas tem vários projetos que precisamos correr atrás", afirmou. "No nosso caso só conseguimos as casas, ainda precisamos de uma rede de abastecimento de água", acrescentou Vandalva Fernandes de Souza, 22 anos, há sete anos no MST, pertencente ao assentamento Riacho da Palmeira, Iguaí.
No meio do grupo é fácil identificar uma grande quantidade de mulheres jovens com filhos no colo. Niquéli da Rocha, 19 anos é mãe de Tauane de 9 meses. Franzina e com rosto bem jovem, ela fala com naturalidade da vida no campo, no assentamento junto ao companheiro. "É cansativo, mas a luta a gente não deixa", confessa.
Há 10 anos no MST, Maria Nilma também é do mesmo assentamento e fala sobre as nuances que envolvem a vida de um "sem-terra". Apesar dos sacrifícios, ela exalta o poder de luta e senso de família existente no grupo. "Meu marido não pôde vir porque está doente. Então vim para lutar com todos e só vamos sair daqui depois que conseguirmos tudo o que queremos", ressaltou.