Ajuda ao agronegócio terá bom impacto no PIB (Editorial)
Reunião extraordinária do Conselho Monetário Nacional (CMN), o governo autorizou um plano de ajuda para o agronegócio. Por meio do BNDES e de instituições financeiras credenciadas, R$ 12,6 bilhões serão injetados no setor agrícola, principalmente pela utilização das chamadas Linhas Especiais de Crédito. Esses recursos serão divididos, atendida a prioridade de socorro às agroindústrias (com exceção das que estiverem em processo de recuperação judicial), com expressa intenção de garantir capital de giro para o setor. Essa linha terá R$ 10 bilhões e será usada na ajuda a frigoríficos, laticínios, cooperativas e indústrias de máquinas e implementos agrícolas. Outro R$ 1,30 bilhão será liberado para um programa especial de estocagem de álcool. Além disso, o CMN elevou em mais R$ 300 milhões os recursos destinados ao programa de desenvolvimento do cooperativismo, que alcançará até o final do ano disposição total de R$ 2 bilhões.
Esses programas de ajuda não se misturam. Cada um deles tem um objetivo próprio. Há, porém, um ponto em comum entre esses diferentes programas: a taxa de juro cobrada pelo BNDES nas linhas de crédito para ajudar o agronegócio será sempre de 11,25% ao ano, com dois anos de pagamento e um de carência. Nesse aspecto, aliás, está um certo tom de derrota do Ministério da Agricultura. Desde bem antes da reunião que bateu o martelo quanto ao plano de ajuda ao agronegócio, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, lutava na área econômica do governo para que a taxa de juro do programa de ajuda acompanhasse a do crédito rural, que é de 6,75% ao ano, a mesma cobrada na Taxa de Juro de Longo Prazo dos empréstimos do BNDES. A opinião do ministro Stephanes foi vencida. O agronegócio consegue recursos nos bancos com taxas entre 12% e 18% ao ano, que são incompatíveis na prática com a lucratividade alcançada pelas empresas, especialmente neste momento de crise internacional. Vale notar que o secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, representante do ministério na solenidade que anunciou o plano, insistiu em informar que não há programa de ajuda para empresas em crise, afirmando: "É capital de giro, só isso".
A resistência em reconhecer as dificuldades do setor demonstra que o governo ainda não tomou pleno conhecimento do impacto da crise no agronegócio. A perda de 100 mil postos de trabalho, antecipada por reportagem da Gazeta Mercantil, dá bem a medida do tamanho da crise no setor. A Associação Brasileira dos Exportadores de Carne revelou que os 21 maiores frigoríficos do País, incluindo os sete que já pediram recuperação judicial, já demitiram desde o início da crise 52 mil trabalhadores. A outra entidade do setor, a Associação Brasileira de Frigoríficos, também notificou a demissão de outros 15 mil empregados. Além das atividades suspensas dos frigoríficos de médio porte, como, por exemplo, os 15 estabelecimentos parados em Mato Grosso . Com a indústria fechada, os pecuaristas naquele estado chegaram a bloquear estradas para exigir o pagamento de boiadas já entregues. O problema não está restrito a uma região do País. Quando somadas as demissões das empresas coligadas na cadeia produtiva do agronegócio, a perda de postos de trabalho ultrapassa os 100 mil, desde o último trimestre do ano passado.