Temporão e os legumes
Eu só queria entender o que pensou, de fato, o ministro José Gomes Temporão ao ser interrogado sobre o excesso de agrotóxicos nos legumes.
Crivado que foi de microfones, teria de ser enfático, coerente e conclusivo. Com a resposta engatilhada, ele disparou: "Eu já cortei lá em casa. Vocês façam o resto".
Mais ou menos estas palavras. Acaso o ministro sugeriu às donas-de-casa que o ouviam a supressão do tomate, do pimentão e da cenoura na dieta caseira? Sem mencionar frutas, como o morango e a uva, igualmente contaminados? Não me parece. Sendo ministro da Saúde, ele haverá de velar por uma rica e diversificada nutrição.
Neste caso, o que aconselhou mesmo? Só vejo isto: a fiscalização rígida dos hortifrutigranjeiros que abastecem os supermercados. Mas não sei de que maneira, porque o agrotóxico não deixa na casca sinais de sua presença perigosa.
E o consumidor não está na folha de pagamento dos fiscais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Percebi, afinal: Temporão, que nas atividades agrícolas significa safra antecipada, recomenda produtos orgânicos. É prudente na preferência.
Mas em geral o desamparado consumidor, também prudente, não tem acesso aos orgânicos, que ainda são poucos e custam bem mais caro.
Este impasse que afeta a saúde pública é ilustrativo da quebra de responsabilidade na vida pública. Alguém chega a deputado, a senador, a ministro - e encolhe a consciência. É como se pairasse acima do bem e do mal, sem contas a prestar, sem explicações a dar, salvo palavras e pensamentos escorregadios e vesgos, apanhados e expostos na hora, sem contrair a cara.
Só mesmo aqui, onde a atividade política confere a seus praticantes aquela aura de celestial imunidade, um homem público em posto de relevância seria capaz da declaração do ministro Temporão. É ou está, como disse certa vez o baiano Eduardo Portella, ministro da Saúde, o excesso de agrotóxicos contamina alguns legumes, e ele, simplesmente, se evade da responsabilidade de "tomar providências" - este lugar-comum da incúria administrativa brasileira.
Temporão mandou todos nós às favas - talvez contaminadas também.
Este desabafo vem a propósito da quebra de responsabilidade moral, que se expande e dentro em pouco legitimará uma sociedade de cínicos.
O Congresso, com duas casas mais vigiadas que do Big Brother Brasil, tem servidores tão espectrais que, se trabalham, ninguém os vê. É o caso, segundo se noticiou, da sogra do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) detentora de vencimentos de R$ 4 mil. Neutralizar a sogra com verba pública - eis uma façanha sublime! Na Câmara, o deputado Fábio Faria (PMN-RN) usou bilhetes aéreos de sua cota pessoal para mandar uma namorada a passeio.
Assuntos domésticos, assuntos do coração na congestionada pauta de Câmara e Senado...
Texto:
Hélio Pólvora - Escritor, membro da Academia de Letras da Bahia