Exposição perde público e deve ter queda no volume de negócios
Sem as maiores empresas de tratores e ainda sem quórum, a 16 edição da Agrishow - segunda maior feira de tecnologia do mundo - reflete a crise financeira instaurada sobremaneira no agronegócio e projetada na contração dos negócios fechados pelos expositores e nos pavilhões e corredores vazios.
O crescimento espelhado nos anos anteriores pela Agrishow aparece agora distorcido nos números apresentados pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq), organizadora do evento. O nível de utilização da capacidade instalada no setor de máquinas e implementos agrícolas recuou mais de 10% este ano. E essa é só uma das retrações amargadas pelo segmento em questão.
No primeiro mês do ano, a indústria de máquinas "chegou ao fundo do poço" e de lá ainda não saiu. A queda na comercialização média desempenhada pelo setor continua pelo menos 20% menor em relação ao ano passado. "Em algumas cadeias produtivas, o faturamento caiu mais de 60%", calcula o presidente da Abimaq, Luiz Aubert Neto.
A queda nas vendas internas teria sido um dos motivos para as grandes montadoras boicotarem a feira. Conforme dados da Associação Nacional dos Veículos Automotores (Anfavea), em março foram vendidas 4,33 mil máquinas, queda de 4,2% em relação ao mesmo período de 2008.
De acordo com levantamento do Departamento de Economia e Estatística (DEE) da Abimaq, o faturamento das empresas de máquinas e implementos agrícolas encolheu mais de R$ 900 milhões só nos três primeiros meses de 2009 na comparação com o mesmo período do ano anterior - encolhimento exatamente proporcional à queda na receita com as vendas externas, que também foi de 44%.
Empregos perdidos
Enquanto o fluxo das exportações caía de US$ 233,7 milhões para US$ 130,8 milhões, a entrada de máquinas e implementos agrícolas no mercado doméstico crescia 5,8% no referente período. "A produção agrícola até caiu menos que o esperado, mas estamos vendo uma invasão de produtos a preços impraticáveis, e isso é dumping", conjectura Aubert.
O nível de emprego nessa cadeia produtiva foi reduzido a 236 mil vagas em março deste ano, 15 mil a menos que as 251 mil que ainda existiam em outubro de 2008. "Essa perda é um desastre, mas quando não se tem mais saída se corta na carne", lamenta o presidente da Abimaq. Ainda de acordo com Aubert, em curto prazo, outros 60 mil postos de trabalho podem ser fechados até setembro caso o setor continue sendo taxado com a cobrança de PIS e Cofins, que onera em até 11% a indústria. "É mais fácil colocar um implemento agrícola sobre quatro rodas e pintar de branco para se enquadrar nas categorias automóveis ou geladeiras, do que o governo conceder algum tipo de isenção ou incentivo à indústria de máquinas agrícolas", desabafa Aubert.
O presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq, Celso Casali, engrossa o coro do presidente da Associação e argumenta que só com PIS e Cofins o setor é onerado em 9,25%, em média. "Sobre toda a cadeia produtiva incide impostos que não conseguimos nem mensurar. Estamos sendo penalizados", lamenta. Segundo os cálculos da Abimaq, a rentabilidade média do setor não passa de 6%, "ante uma taxa Selic de 11,25%, que só beneficia as instituições financeiras", argumenta Casali.
Sustentado pela irrisória parcela de 19% do Produto Interno Bruto (PIB) convertida à Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) praticada na economia brasileira, o presidente da Abimaq argumenta que a participação da indústria no PIB brasileiro caiu de 45% para os atuais 22%. Enquanto isso, a fatia do PIB mundial alimentada pela economia brasileira recuou de 4% para 2,5% - uma matemática, segundo Aubert, definida pelas taxas juros praticadas aqui no País, pela taxa cambial e ainda pela tributação que sobrecarrega, em especial, o agronegócio de maneira generalizada.
"Não queremos proteção e sim isonomia em relação aos outros players mundiais", pleiteia Luiz Aubert. O índice médio mundial de investimento na FBCF é de 23,7%. Países como a Rússia, Índia e China devem alcançar em 2009 uma taxa de até 34%.