Arranjo envolve agricultura familiar em 59 municípios
Em 2004, quando o projeto Ouro Verde foi lançado, Edouard Michelin, então presidente do grupo - ele morreu em um acidente marítimo em 2006 -, foi a Brasília mostra-lo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula disse que a ideia era boa, mas que ele gostaria que ela beneficiasse também o pequeno produtor.
Foi o ponto de partida para uma parceria entre a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário (EBDA), a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac, federal), o BNB, a Michelin e a Biofábrica de Cacau (mudas, estadual) para estender o arranjo produtivo desenvolvido pela empresa à produção familiar. Até agora, mil famílias aderiram ao programa em 59 municípios da região.
O crédito do BND beneficia lavouras de 1 hectare, no máximo, com quatro anos para pagar o plantio de cacau e oito para o de seringueiras. Ivo Cairo, um dos 12 médios produtores do projeto Ouro Verde e representante da Michelin no grupo que coordena o programa de agricultura familiar, disse que vem sendo negociada com o governo, com boas perspectivas, uma mudança nas regras do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) que permita elevar o financiamento para o plantio de até 3 hectares.
"A mudança permitiria que o agricultor tivesse uma renda de três a quatro salários mínimos por mês, efetivando, realmente, a inclusão social". Segundo um dos técnicos que prestam assistência às famílias, a capacidade de oferecer garantias a um financiamento maior ainda trava a ampliação.
Dasneves Lacerda, seis filhos (dois menores, que vivem com ela), trocou a profissão de manicure em Salvador pela tentativa de viver da terra na região onde nasceu, estimulada por um casamento incerto. Juntou R$ 3 mil e, com mais R$ 800 do marido, o casal comprou um lote de 7 hectares em Camamu onde plantou, sem método, de tudo um pouco: abacaxi, banana, pimenta, café, cana, alecrim, alfavaca... Um sítio agradável, mas que lhe rende muito pouco.
Dasneves mora com os dois filhos pequenos (seis e dez anos) em uma casinha de madeira, de chão batido, sem luz elétrica ou água encanada. "Ando 250 metros para pegar água, lavar os pratos e as roupas". No máximo, ela consegue faturar R$ 100 por feira, mas como o marido nem sempre está presente -no momento trabalha no Espírito Santo, na colheira de café -, é difícil até levar a produção para a feira de Camamu
"As vezes me arrependo um pouco, mas não vou desistir". Em 2006, Dasneves foi estimulada por amigos a procurar o escritório da EBDA e entrar para o projeto de agricultura familiar. Plantou 1 hectare da combinação seringueiras-cacaueiros-bananeiras. Antes que as bananeiras fizessem sombra, colheu abacaxi e maxixe na mesma área. Agora, espera as lavouras permanentes crescerem e dias melhores com elas.
Na tentativa de ajudar o aprimoramento das famílias inscritas ou candidatas ao programa, a Michelin e a Fundação Odebrecht, que também tem ações socioeconômicas na região, criaram uma instituição, a Casa Familiar, voltada para o aprimoramento dos filhos dos lavradores. Eles estudam técnicas agrícolas durante três anos, em regime de uma semana internos por duas em casa, sem interromper os estudos regulares.
Joel do Espírito Santo, 19, um dos 16 jovens de uma turma inicial de 35 (parte abandonou, parte foi estudar em uma escola técnica), começou na Casa em 2008. Ele disse que não pretende migrar para São Paulo ou Rio, como é normal na região, e planeja substituir a banana por graviola no hectare agroflorestal da família, mesmo sem a certeza de que o arbusto que dá o fruto (coração-de-boi) substitui a bananeira na função de dar sombra aos cacaueiros. "Quem não arrisca não petisca", responde ele, de olho na maior rentabilidade da graviola.
Geração de renda é, com certeza, uma necessidade urgente do Baixo Sul da Bahia. Os indicadores sócio-econômicos de Igrapiúna são um bom exemplo. Desmembrado de Camamu na década passada, o município de 13.246 habitantes (2007) tem Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 601 (2000), o que o situa no terço mais carente dos 5.562 municípios brasileiros, incidência de pobreza de 63,31% (2003) e renda per capita de R$ 5.547, contra R$ 6.922 da média estadual. Borracha, cacau, palmito, dendê e banana são as principais culturas e fontes de riqueza.