Ações simples, frutas mais resistentes
O fenol, presente na urina da vaca, aumenta a resistência do abacaxi
Além de ser fácil de obter e não causar risco à saúde do produtor e do consumidor, a urina de vaca nutre a planta e aumenta a produção.
Pensando nisso, a Associação dos Produtores de Orgânicos do Recôncavo baiano (Aporba) está difundindo o uso da urina de vaca entre os pequenos agricultores da região de Conceição do Almeida.
Pode até parecer estranho, mas o método tem dado bons resultados, como no cultivo do abacaxi, livrando a planta do ataque da fusariose. “As plantas ficam mais saudáveis. A urina é barata, todo mundo encontra, além disso, pode ser usada em quase todas as culturas porque uma das substâncias presentes, o fenol, aumenta a resistência da planta, e sem uso de agrotóxico”, comemora o técnico agrícola Pedro Coni, presidente da Aporba.
A urina pode ser guardada por um ano em vasilhame fechado.
Coni já faz uso da urina de vaca em muitas plantas que cultiva no Sítio Bonsucesso, na zona rural do município. Por conta dos bons resultados, resolveu repassar a ideia aos demais produtores.
“Fiz a experiência de acordo com a técnica desenvolvida em estados como Rio de Janeiro. Resolvi difundir entre os produtores da região. A urina de vaca imuniza a cultura desde o plantio até a colheita. Mas precisa de incentivos por parte das prefeituras, Estado e dos institutos de pesquisa, alerta o produtor”.
PLANTIO – No Sítio São João, a 4 km de Conceição do Almeida, o pequeno produtor familiar Edson Eduardo Melo Sobral, de 48, usa a urina de vaca há um ano depois que perdeu três mil pés de abacaxi que foram atacados pela fusariose, causada pelo fungo fusarium, sendo a principal doença da cultura. “Em 2006 e 2007, perdi todo o cultivo. Em 2008, orientado por Pedro Coni, usei a urina de vaca no início do plantio, em abril. Agora, no inverno, estou colhendo frutos bonitos, que ainda vão gerar mudas sadias”, comemora.
Edson Sobral tem mais a comemorar.
Os frutos que ele está colhendo hoje são chamados de temporãos, ou seja, colhidos fora da safra. Por isso, cada abacaxi está sendo comercializado pelo agricultor por R$ 1,30. “Como nesta época tem pouca oferta, o preço está em alta e o lucro aumenta.
Estou colhendo 1.500 cabeças.
Todas já vendidas a R$ 130 o cento”, ressalta. Ele ensina que a muda já é plantada imunizada com a urina da vaca. “A gente pulveriza um pouco na cova, na muda e planta. Um mês depois, recomeça a pulverização. Além da urina usamos adubo de curral e raspa de mandioca”.
APLICAÇÃO – Os experimentos com uso da urina de vaca começaram em 1992 com os pesquisadores Ricardo Sérgio Sarmento Gadelha (falecido) e Regina Célia Alves Celestino, da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro). A partir dos testes, eles descobriram que a aplicação da urina de vaca recuperava plantas de abacaxi com sintomas de fusariose, doença que causava danos de até 40% na produção final. O uso da urina bovina, seguindo a pesquisadora, reduz a dependência do pequeno agricultor de produtos químicos, como agrotóxicos. Já é usada, com resultados satisfatórios, por produtores rurais do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Minas Gerais.
Os primeiros experimentos para o aproveitamento da urina de vaca como fungicida foram feitos em 1992 pelos pesquisadores.
Nas análises, os técnicos da Pesagro confirmaram não só o controle da fusariose do abacaxi, mas também de outras doenças provocadas por fungos. A provável substância responsável pela recuperação das plantas é o catecol, um aminoácido que aumenta a resistência das plantas.
AÇÕES – Segundo a pesquisadora Regina Célia Alves Celestino, especialista em fitossanidade da Estação Experimental de Macaé, a ideia de se aproveitar a urina de vaca surgiu a partir de reivindicações de pequenos produtores rurais, para que a Pesagro desenvolvesse ações que aumentassem a produção com redução do uso de agrotóxicos.
“A urina de vaca é muito benéfica, pois reduz o uso de agrotóxicos, nutre completamente a planta, aumenta o número de brotações, de folhas e de frutos, não causa riscos à saúde do produtor e do consumidor”, frisa.
A pesquisadora orienta o produtor a coletar a urina na hora da ordenha. “Quando for retirar o leite, ele coleta a urina com um balde e armazena em bombonas plásticas por mais de um ano.
Depois desse período, ela começa a perder sua ação de fertilizante e inseticida. Após três dias de coletada, pode fazer uso da urina, já que ela não reage a nenhuma fermentação.
APLICAÇÃO – Regina Célia, especialista em fitossanidade, explica que a aplicação é fácil. A mistura é pulverizada sobre os vegetais, mas, no caso das fruteiras, a primeira aplicação costuma ser no solo, com o objetivo de promover o desenvolvimento de raízes. No abacaxi, orienta, pulverizase a mistura com a mesma dosagem: um litro de urina para 100 litros de água, uma vez por mês, nos primeiros quatro meses.
Depois, aumenta-se a quantidade de urina para 2,5 litros para cada 100 litros de água, mensalmente.
O procedimento deve ser suspenso dois meses antes da indução da floração.
Segundo a pesquisadora, as folhas do abacaxi aumentam de quantidade, o fruto ganha peso e diminui a acidez.
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