Região sisaleira terá novo equipamento para cortar fibra
“Para nós, que vivemos no campo, a maior preocupação é ficarmos mutilados, mas agora vem a chance desta preocupação acabar”.
Foi assim que o aposentado Cândido da Silva Vieira, hoje com 53 anos, morador do município de São Domingos, começou a lembrar do acidente que o fez perder um dos braços na máquina de cortar sisal.
O acidente aconteceu há 36 anos, quando o trabalhador, distraído, teve o membro puxado ao tentar colocar uma folha do sisal para desfibrar. “Você só vê quando o braço está dentro da boca da máquina. Então, não há mais nada a fazer do que suportar a dor da amputação”, lembra, acrescentando que, após o acidente, não teve mais como trabalhar no desfibramento da folha do sisal.
Mas o drama do aposentado – e dos cerca de dois mil trabalhadores que foram mutilados na região sisaleira – está com os dias contados, uma vez que graças à inteligência do mecânico Faustino Santos, de 57, a máquina de desfibrar o sisal, batizada como “Paraibana”, será substituída por uma nova máquina, a Faustino 4, que acaba com o risco de mutilações no campo.
O equipamento foi desenvolvido com o auxílio de engenheiros da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e está sendo testado em comunidades dos 32 municípios que compõem a região.
COMO FUNCIONA – Ao contrário da antiga, a nova máquina possibilita a inversão da folha, sem esforço ou necessidade de se meter a mão na boca do equipamento.
Como a folha que está sendo desfibrada volta sozinha, não há possibilidade de mutilação.
Além disso, o equipamento tem um dispositivo que, ao ser tocado, faz com que o moedor rode em sentido contrário, evitando, assim, os acidentes.
As mutilações na região sisaleira da Bahia ganharam notoriedade nacional depois que, no começo dos anos 80, os jornais exibiram imagens de uma assembleia de mutilados, todos com os cotos levantados, pedindo solução para o problema.
Segundo o secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Ildes Ferreira, tentativas de solução do problema foram feitas, sem êxito, como, por exemplo, uma máquina que foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), com o apoio da Finep, a agência de fomento do Ministério da Ciência e Tecnologia, que não se mostrou eficiente.
“Alguns setores da sociedade civil europeia fazem uma campanha para não comprar produtos da região do sisal baiano, devido às condições precárias de trabalho, e a mutilação é um exemplo disso”, destaca.
PROJETO – No ano passado, a Secti teve a ideia de juntar a criação de um mecânico, que não tinha nenhum tipo de conhecimento científico, com o conhecimento técnico-científico dos engenheiros da escola politécnica da Ufba e resultou na nova máquina.
Com um investimento total de R$ 2,6 milhões, através de um convênio com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, estão sendo confeccionadas 200 máquinas, que foram batizadas pelo criador de Faustino 4.