Os vinhedos do semiárido

27/08/2009

Os vinhedos do semiárido

 

Desde que o sertão virou mar – leia-se a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, que inundou mais de 4 mil quilômetros quadrados de caatinga –, um bocado de coisa mudou no Vale do São Francisco na região de Juazeiro e Petrolina. Concentradas para gerar energia, as águas do Velho Chico também foram espalhadas pelo vale para gerar frutas tipo exportação, graças à técnica da agricultura irrigada.

Entre mangas e melancias, encontram-se também uvas, que saem dali não só in natura, mas também fermentadas, engarrafadas e rotuladas.

Pois é: depois de mar, o sertão virou terroir. E o turista ganhou um novo motivo para visitar a terra de João Gilberto e Ivete Sangalo, cantada ainda por Alceu Valença em Juazeiro, Petrolina, forró de Jorge de Altinho.

Com a particularidade de produzir mais de uma safra por ano, graças ao clima, o solo franciscano já atrai produtores portugueses e espanhóis, e levou tal quantidade de gaúcho a trocar o “bá” pelo “oxente” que daqui a pouco o sertão vira é pampa.

MUDANÇAS – Aos poucos, o vinho começa a fazer parte do dia-a-dia dos habitantes de Juazeiro e Petrolina, um conglomerado de cerca de 500 mil habitantes que é a principal concentração populacional do semiárido nordestino. Embora nos barezinhos se veja mais a tradicional cervejinha, as garrafas com a inscrição Vale do São Francisco no rótulo estão nas gôndolas dos supermercados e são a principal atração das lojas de souvenirs do aeroporto de Petrolina, cidade que já tem uma loja dedicada à bebida na orla.

Se ainda não consomem tanto o vinho, petrolinenses e juazeirenses foram os primeiros a aderir ao enoturismo. “Recebemos muitos visitantes da região; virou um passeio comum de fim de semana”, conta Flávia Cavalcanti, enóloga responsável pelo programa de visitação da Fazenda Ouro Verde, uma parceria entre as vinícolas Miolo e Lovara, além da fabricante espanhola de brandy Osborne. Depois do público local, a maioria de visitantes é de Recife e Salvador.

Única das vinícolas do Vale do São Francisco localizada no lado baiano (no município de Casa Nova, a cerca de meia hora de Juazeiro), a Fazenda Ouro Verde lançou, em outubro do ano passado, o seu programa de enoturismo em cerimônia com a presença do governador Jacques Wagner, e harmonização da iguaria mais típica da região, o bode com vinho.

Com menos de um ano de atividade, o programa já chegou a registrar mil visitantes num mês.

Mais estruturada da região, a visita é acompanhada por enólogos formados em curso específico no Cefet da região (o único a oferecê-lo, além do localizado no Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul) e termina numa lojinha de onde é praticamente impossível sair de mãos vazias, ainda mais depois de sacudir, checar a cor, sentir o buquê e analisar o tanino de uns seis rótulos.

PASSEIO – É na própria lojinha, no térreo da casa-sede da fazenda, que os grupos se reúnem para dar início ao passeio. Em seus próprios carros – a vinícola não oferece o transporte a partir de Petrolina ou Juazeiro, mas é possível consegui-lo com as agências de receptivo locais –, os visitantes seguem para os vinhedos, que se espalham por 150 hectares, do total de 700 do local.

Para quem nunca esteve num vinhedo, a paisagem pode não despertar estranhamento algum – além, claro, do de se ver parreiras firmes e fortes em meio ao cenário de árvores baixas e arbustos retorcidos da caatinga.

Mas os que já deram seus primeiros passos no mundo da enologia notarão logo um “pequeno” detalhe que difere o vale de todas as regiões produtoras de vinho do mundo.

Enquanto nos climas temperados todas as parreiras seguem um mesmo curso de amadurecimento, definido pelas estações do ano, que terminará na colheita de uma única safra anual, no sertão, colhem-se duas, três. O que fica bastante claro quando se vê o campo com parreiras em diferentes estágios.

“Esta é uma característica única daqui. Por causa do clima, uma planta já está pronta para a colheita dois ou três meses depois da poda. Colhemos duas safras por ano de cada planta. Nos limitamos para não ter mais produção do que meios de escoá-la”, diz o gerente técnico da Ouro Verde, o gaúcho Flávio Durante.