Piscicultores de Utinga comemoram vendas
Os produtores rurais Francisco Martins da Silva, 42 anos, e Adriano Gomes dos Reis Costa, 24, deixaram o trabalho diário na lavoura de banana, no povoado de Cabeceira do Rio, município de Utinga, a 420 quilômetros de Salvador, para cultivar peixes.
Desde 2007, quando resolveram investir com recursos próprios no negócio, eles são os pioneiros no Projeto Peixes da Nascente, da Seagri, realizado por meio da EBDA. Vinte famílias de pequenos agricultores da região participam do projeto. Francisco e Adriano colhem agora os frutos dos investimentos feitos na construção de 10 tanques, sendo dois de cimento e oito escavados. Eles começaram a colher, desde meados do ano, os primeiros resultados positivos, com a retirada de mais de meia tonelada de peixes do tipo tilápia por mês, que é vendido a R$ 8, o quilo, para moradores e comerciantes da região. A comercialização do peixe tem rendido, em média, R$ 4 mil mensais às duas famílias, que já planejam aumentar para 15 tanques de cultivo de peixes, o que poderá aumentar a produção para uma tonelada de peixes por mês.
O projeto conjunto entre a Bahia Pesca e a EBDA aproveita as águas do canal do Rio Utinga e utiliza os alevinos de tilápias da Estação de Piscicultura de Boa Vista do Tupim, administrada pela Bahia Pesca. As 20 famílias beneficiadas estão inscritas no Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), com direito ao financiamento de R$ 13 mil para a implantação de 10 tanques de piscicultura, financiados pelo Banco do Brasil.
O chefe da Estação de Piscicultura de Boa Vista do Tupim, Hégio Rafael Mascarenhas, e o gestor do Centro de Pesquisa e Formação de Agricultores Familiares da EBDA em Utinga, Camillo de Lellis Leão, explicam que foi preciso um intenso trabalho para criar uma nova cultura de produção na região. Isso porque a piscicultura não era uma atividade vista como fonte geradora de emprego e renda. “Criar uma alternativa de produção não foi fácil. Porém, o mais importante é que para ter sucesso foi preciso que eles, os produtores, acreditassem no projeto”, diz Hégio.
Já Camilo Leão ressalta que boa parte dos pequenos produtores ainda aguarda a liberação do financiamento por parte do Banco do Brasil. “Eles só não destruíram porque acreditavam na ideia”. Quem também acreditou no sucesso do programa foi a prefeitura local, que custeou a ida dos técnicos para a realização dos cursos de capacitação feitos pela Bahia Pesca e EBDA e estuda a instalação de pontos de venda na cidade e a inserção do pescado como componente da merenda escolar nas escolas municipais. Este ano, o Banco do Brasil começou a liberar o financiamento de R$ 13 mil destinados à implantação de 10 tanques por projeto, com pagamento em sete anos. Cada projeto é feito em parceria com duas famílias, que dividem os custos de implantação dos tanques e a renda obtida com a produção de pescado.
No pequeno povoado de Cabeceira do Rio, distante 5 Km da cidade de Utinga, as 100 famílias que residem no local já incorporaram o hábito de consumir tilápias. Algo impensável há pouco mais de dois anos, quando começaram os cursos de capacitação promovidos pela Bahia Pesca, transformando antigos agricultores em piscicultores.
Na frente da casa de Oswaldir Rocha, 29 anos, uma placa afirma, vende-se peixes. Quem cuida das vendas é sua mulher, Daniela Leão, que administra o negócio, iniciado este ano e que já permitiu uma ligeira melhoria nas condições de vida da família. Oswaldir, que até pouco tempo sobrevivia como diarista nas roças de banana, ganhando R$ 12 por uma jornada de 10 horas de trabalho, hoje comemora o sucesso da piscicultura, onde vende o peixe a R$ 8 o quilo.
Quem já recebeu o financiamento, como Advaelson Barbosa dos Santos, 34 anos, já pode até mesmo comprar um carro e melhorar as condições de vida da família. Com os 500 quilos de peixes que vendeu no mês passado, ele faturou pouco mais de R$ 3,5 mil, e tem perspectiva de aumentar a produção.
Já Júnior Cesar, não desanimou mesmo não recebendo o financiamento ainda e para implantar os 7 tanques de sua propriedade, ele vendeu tudo o que tinha e hoje trabalha com a perspectiva de retirar 800 quilos de peixes, rendendo R$ 6,4 mil, divididos com uma outra família com a qual trabalha.