Sem Doha, novo alento com a UE

14/09/2009

Sem Doha, novo alento com a UE

 


São cada vez mais evidentes os sinais de que a Rodada Doha encalhou de vez no neoprotecionismo sobretudo dos países ricos gerado no seio da crise financeira global.

Se, antes da crise, com os preçosdas commoditiesmuito acima das médias históricas, já havia pouco espaço para sucesso na abertura dos mercados agrícolas, agora ficou muito pior.

Ninguém quer dizer que causas daquele fracasso, até porque foram tantas, com culpas de todos os atores, que a especulação é inócua. E vale a pena, sim, retomar o entendimento.

Afinal, a UE é o maior comprador do nosso agronegócio: um terço de tudo o que exportamos vai para lá. Também é verdade que os 27 países que a compõem têm diferentes interesses, e que muito do que lhes vendemos como matériaprima é industrializado e reexportado com valor agregado maior.

Nosso governo está se movimentando, felizmente, para chegar a uma reunião com a União Europeia marcada para novembro, com propostas bem delineadas.

A tarefa é monumental e o processo, extremamente complicado. Trabalhando a quatro mãos, o Itamaraty e o Ministério da Agricultura iniciaram, discretamente, sondagenscom ascadeiasprodutivas do agronegócio brasileiro para atualizar as propostas e as restrições de cada uma.

Depois disso, o governo precisa aindaouvir oque querem os demais setores – indústria, serviços etc. – porque a UE tem claras demandas na abertura desses segmentos, alguns dos quais extremamente protegidos aqui e na Argentina.

Depois que isso estiver tabulado – e os sonhos são díspares (uns querem cotas, outros querem o fim das tarifas, outros querem ambos, e assim por diante) –, nossos negociadores precisam articular isso tudo com os parceiros do Mercosul.

E aqui, claramente, os interesses não se casam. Aliás, se Doha está na UTI, que dirá o Mercosul, sistematicamente atacado por algum país-membro que vê qualquer setor, especialmente industrial, ameaçado por outro membrodo bloco! E se até hoje não conseguimos sequer harmonizar as grandes linhas macroeconômicas, que dirá as linhas setoriais, ainda mais específicas? Enfim, é nesse cenário complexo que sedevem harmonizar os interesses do agronegócio do bloco regional.

Isso feito, tarefa hercúlea, falta a negociação com a UE, com todosos problemasque a brecaram em 2004. Não é trivial, e é preciso lutar.

Há, por fim, uma outra novidade que pode azeitar o entendimento: Mercosul (essencialmente Brasil) e UE podem se unir para fazer projetos conjuntos na África – cooperação tripartite.

Um tema de grande interesse para o Brasil: os europeus financiam os africanos e nós lhes vendemos tecnologia e equipamentos.

Fonte:
Jornal A Tarde
Opinião Econômica Roberto Rodrigues ex-ministro da Agricultura (governo Lula).