Flores, como tudo na vida, seguem a ciranda da moda
Foto: A Tarde
Pode até ser primavera, festejada na voz trovejante de Tim Maia e devidamente espalhada pelos jardins da cidade. Masnem tudo são flores.
Com o perdão do trocadilho infame, explica-se: em tempos de tendências vorazes, nem mesmo as pobres plantinhas escapam da sina de virar estrelas, só para depois cair no mais cruel esquecimento.
Pois é, até elas, tão naturais, acabam sucumbindo a modismos artificiais. Por conta dessa montanha-russa do in e do out é que exuberantes beldades como a samambaia chegaram a ser relegadas a segundo plano. “Há poucotempo eravisto comobrega tê-las em casa. Eu não concordo!“, se inflama a paisagista Isabela Conrado,daConrado Paisagismo e Meio Ambiente.
Talvez em tempos de escova inteligente e que tais, ramos revoltos já não pegassem tão bem. Coincidência ou não, agora que muitas moçoilas assumem seus cabelos, ela volta à cena.
Repaginada, é claro. A palavrinha insuportável indica que a setentista planta largou os antiecológicos xaxins e já não fica dependurada em correntinhas (que por enquantosó ficam bem mesmo nas bolsas chanel).
Agora elabrilha emcachepôs, subindo por jardins verticais, postes e paredes verdes. Também pode dar o ar de sua graça em canteiros, tudo bem natural.
Outro da mesma época que surfa a onda retrô é o antúrio, que vem todo amigável. A variedade antúrio amigo tem a flor mesclada: vermelha no centro, com bordas verdes.
Também espanando o pó da cafonice, a yuca retorna, dessa vez valorizando o que a torna tão peculiar: o tronco e a batata (que é como um enorme globo que se projeta do solo, antes do tronco voltar a afinar). “Sãoas mesmasplantas,mas de repente usadas de forma diferente“, analisa o engenheiro agrônomo e paisagista Alex Sá Gomes, presidente da Associação de Paisagistas da Bahia.
Novelas E se as plantas, como as roupas (vide as de nefastas coresnéon), deixam de ser breguinhas após uns 20 anos de geladeira, da mesma maneira podem ser desejadas graças ao poder da TV.
“Há clientes que têm muito a referência da novela. E a gente fica numa sinuca de bico, porque muitas destas plantas não se adaptam ao clima de Salvador, ou a ambientes internos“, desabafa a paisagista Milena Pires, da Ecojardim.
E na hora que alguém encasqueta que quer uma planta igual à do jardim de inverno da dondoca da novela das oito, nem adianta argumentar que aquilo ali é puro plástico.
Au contraire. Se você não pode com eles, junte-se a eles. Em alguns casos, dá até para recomendar justamente a herética solução. O bambu mossô, por exemplo. Fino e elegante, sente saudades do fresco Japão natal e não se adapta bem ao calor baiano.
Resultado: fica um tempo bonito, depois amarela, parecendoaté ter morrido.Sealguns podem curtir o visual árido, outros torcem o nariz. E aí? “A alternativa é um artificial.
Conseguimos um fabricante de Minas Gerais que é muito bom.
Só mesmo quem conhece percebe que não é natural“, garante Milena.
O irônico é que a versão artificial de 2,5metrosé mais dispendiosa: R$ 800, contra R$ 250 da natural. O preço pelo viço que resiste ao passar dos anos.
As tendências estão aí para quem quiser segui-las, mas como qualquer invenção humana, tem seus dissidentes. Com um jardim repleto de plantas, a dona de casa Tânia Pires pouco se importa com modinhas.
“Tenho minhas plantas mais velhas, mais novas, adoro todas“, se derrete. Tanto que nem dá para indicar favoritas no meio de todas que cuida, entre vasos, jardim e horta.
A paisagista Isabel Conrado, dessa vez, concorda. “A natureza não segue regras enemtendências“, lembra. Não custa nada dar ouvidos à especialista.