Ministro diz que metodologia do censo ofusca agronegócio
"Se não fui convidado para o baile, não vou para o café da manhã." Assim o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, justificou, por meio de sua assessoria, a ausência na apresentação dos dados do Censo Agropecuário de 2006.
Na sua avaliação, a mostra dos dados da agricultura familiar prejudicou a avaliação do agronegócio brasileiro. Como o IBGE incorporou à agricultura familiar as pequenas propriedades, o desempenho do setor ganhou destaque e ofuscou a importância do agronegócio na balança comercial.
Por meio da sua assessoria de imprensa, o ministério informou que somente depois de uma análise mais detalhada irá se pronunciar sobre os dados do levantamento.
A CNA (Confederação Nacional da Agricultura) também considera que a análise dos dados relacionados à agricultura familiar pode ter gerado distorções. De acordo com a entidade, um estabelecimento não pode ser considerado como uma unidade familiar, pois o mesmo produtor poderia ser contado mais de uma vez.
A coordenadora de assuntos econômicos da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Rosimeire Santos, avalia que o aumento da concentração demonstra que a política agrária do governo não tem gerado resultados. Ela explica que, sem garantir acesso ao crédito e à assistência técnica, o governo acaba forçando a saída do produtor do campo.
"Não basta dar a terra, é preciso dar condições para que o produtor permaneça nela. Entre ter a terra e produzir há uma grande diferença", afirmou Rosimeire.
Pelo critério adotado pelo IBGE, um estabelecimento familiar se caracteriza pela limitação de área de quatro módulos rurais -que podem variar entre cinco e cem hectares, de acordo com a região do país- e pelo uso predominante da mão-de-obra da família.
Para o IBGE, a renda familiar deve provir da produção -não só da atividade agropecuária, mas também da silvícola, da extrativista e da pesqueira.
Pequenos produtores utilizam mais agrotóxicos
O número de propriedades rurais que utilizam agrotóxicos cresceu 53% entre 1995-1996 e 2006, segundo o IBGE. O levantamento indica ainda que tal avanço ocorreu especialmente nos estabelecimentos menores, onde há menos assistência técnica do governo e nas quais os donos da terra têm menor nível de escolaridade.
Dos 5,2 milhões de estabelecimentos rurais do país, 27% faziam uso de agrotóxicos em 2006. Segundo o pesquisador do IBGE Eupídeo Freitas, 77% eram dirigidos por pessoas com ensino fundamental incompleto ou grau de instrução inferior.
Isso, segundo ele, pode indicar que o aumento no uso de agrotóxicos está relacionado ao uso incorreto por conta da falta de conhecimento e da baixa taxa de assistência técnica.
"O problema não está no uso do agrotóxico, mas na forma como é usado. Além disso, a aplicação, em sua maioria, é feita com equipamento de maior potencial de exposição aos agrotóxicos", explicou Freitas. Segundo o IBGE, 46,4% dos estabelecimentos rurais voltados à cultura da soja usaram sementes transgênicas. O uso de agrotóxico foi verificado em 94% das lavouras.
O censo mostrou ainda que a assistência técnica ao produtor continua limitada. Atende apenas 22% dos estabelecimentos e está focada em propriedades com área média maior. Em algumas regiões, inexiste.