Invasores recuam para negociar com Incra

21/10/2009

Invasores recuam para negociar com Incra

 


Desde a tarde de ontem, os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD) desocuparam as dependências internas do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (IncraBA) e foram para o estacionamento da autarquia. Com o recuo, eles deram um passo para as negociações. "A mudança de espaço foi um acordo que a gente fez. Teríamos que desocupar o prédio para poder negociar com eles", conta Osmar Andrade, um dos líderes do movimento.

Moradores dos assentamentos Zumbi dos Palmares, Santos Dias, Carlos Marighella e Dandara – localizadosem região próxima a Vitória da Conquista – reorganizaram os pertences e montaram novo acampamento. Eles chegaram na segunda-feira depois de viajarem mais de 15 horas num comboio de seis ônibus.

Do lado de fora do prédio, o clima é de expectativas. A necessidade do diálogo justifica a concessão do MTD. "A gente quer que o Incra desaproprie as fazendas Feliz e Bela Vista, que estão improdutivas em Vitória da Conquista, reconheça as áreas de Zumbi dos Palmares e Carlos Marighella e realize as vistorias de outras fazendas que também estão improdutivas", explica Osmar Andrade.

De acordo com nota divulgada pela assessoria do Incra, a superintendência da autarquia se compromete a cumprir os acordos, apenas após a desocupação total do MTD.

No estacionamento Colchões, mochilas e barracas de acampamento modificam o cenário do estacionamento do Incra, no qual são guardados carros diariamente. Agora, em cada vaga, ao invés de automóveis, famílias se acomodam, sem nenhuma regalia, enquanto aguardam um parecer da autarquia sobre a possibilidade de terem direito a um pedaço de terra para morar.

No lugar abafado e úmido, a falta de conforto não é nenhum incômodo para quem sobrevive em condições ainda mais delicadas. “Você não imaginao queé viverdebaixo de uma lona durante cinco anos e não ver ninguém resolveu nada”, conta Nicanô Teixeira Rocha, de 67 anos. Ele conta que está “cansado de ser enrolado pelo Incra” e dizque não deseja muita coisa, além de uma porção de terra. “Eu não quero cesta básica, não quero lona,não queronada. O que nós queremos mesmo é assentar esse povão num pedaço de chão”, manifesta-se.

A esperança de voltar para cidade natal com um lugar para poder plantar, colher e “criar uma roça” é comum a todos os integrantes do MTD.

"Nós estamos correndo atrás de um futuro para nós, para os nossos filhos. Todo mundo tem direito de ter sua casa", diz Naiara Lemosde Almeida, de 25 anos, que veio com os três filhos, cinco sobrinhos, pai e mãe. Ela conta que só deixará a sede quando tiver a garantia da posse de terra. "Só saio daqui com o papel assinado", garante.

A consciência do direito constitucional à moradia, previsto no artigo 6º da Constituição Federal, está presente entre os integrantes do MDT, até entre os mais jovens. “Precisamosdeterra.

Elestêmque dar terras para a gente. Temos que lutar pelo que a gente quer”, diz Letícia Silva Lopes, 15 anos. “ Eu quero terra. Quero ser fazendeiro”, disse Caio Pereira, de apenas 8 anos.

Enquanto estão na ocupação, as crianças têm aulas com a professora municipal, Andrea Silva Novaes, que acompanha os jovens do assentamento Zumbi dos Palmares.

"A Secretaria da Educação liberouos alunos.Elespediram para que eu acompanhasse e fizesse atividades. Hoje, pela manhã, fizemos oficinas e brincadeiras”, conta.