Nova doença ameaça lavoura do cacau e alerta as autoridades
A maior ameaça à cacauicultura nacional, na classificação do Ministério da Agricultura, avança pelos países vizinhos ao Brasil e tem “alto risco” de infectar a produção brasileira do fruto. É a monilíase do cacau, doença considerada mais devastadora do que a vassoura-de-bruxa e que avança a uma média de 100 quilômetros por ano.
O ministério, no entanto, não tem dados exatos sobre a distância a que a monilíase se encontra da fronteira brasileira.
“O risco de entrada da doença é alto, principalmente pela região Norte. Por isso, estamos desenvolvendo planos de contingência, monitorando as fronteiras e preparando os produtores para cuidar de possíveis infecções”, explica Odilson Ribeiro e Silva, diretor do departamento de sanidade vegetal do Ministério da Agricultura.
A doença já está instalada fortemente no Peru (mais de 80% das plantações de cacau estão infectadas)e, emmenor quantidade,na Colômbiaena Venezuela, todos eles vizinhos do Brasil. Outros países latino-americanos que não fazem fronteira e possuem forte incidência da monilíase são Equador, México, Costa Rica, Panamá, Nicarágua e Honduras.
Sintomas A monilíase tem traços semelhantes à vassoura-de-bruxa: ambas são causadas por fungos e apresentam, no estágio inicial, lesões escuras na superfície do fruto, que depois evoluem para manchas esbranquiçadas e deixam o cacau ressecado, duro e pesado.
Para ser identificada com exatidão, é necessário fazer um corte na superfície do fruto e aguardar cerca de três dias, quando o fungo causador sairá através do corte e, então, será possível ser analisado em laboratório.
Os cacauicultores baianos estão alarmados com a possibilidade da chegada da doença, que seria o estopim de uma situação de crise vivida desde a chegada da vassourade-bruxa. “Nesse momento, aniquilaria a nossa produção.
Estamos endividados, com dificuldade de obter acesso a crédito, e ainda sofremos com a vassoura”, analisa José Carlos Maltez, vice-presidente da Associação dos Produtores de Cacau (APC).
Segundo ele, a Bahia já chegou a produzir 400 mil toneladas de cacau em 1989, antes da chegada da praga. Espalhada durante a década de 90, hoje a produção média é de 100 mil toneladas anuais, distribuida por cerca de 100 municípios.
Naquele momento, a vassoura-de-bruxa pegou de surpresa os produtores, que estavam endividados por causa de colheitas ruins, afetadas por um período de seca.
“Perdemos uma área de aproximadamente 30%, que foi transformada em pasto, porque o produtor não sabia como lidar com a doença”, explica Maltez.
Hoje a vassoura-de-bruxa ainda está presente nas plantações, mas há formas de controlar sua disseminação. Lançado pelo governo federal, o PAC do Cacau deu início à renegociação das dívidas dos produtores no mês passado, mas, até agora, só quatro mil, deumtotal de 15milprodutores, foram beneficiados pelo programa, segundo a APC.
“Esse auxílio ainda não deslanchou”, pondera Maltez.
Devastação Os pesquisadores estimam que a monilíase causa perdas de até 90% na plantação, devido à sua alta capacidade de proliferação. “A grandequantidade de esporos produzidos pelo fungo da monilíase permite que ela se espalhe muito rapidamente”, alerta Odilson Ribeiro. Esses esporos sobrevivem bem à sombra, mas não conseguem se proliferar caso estejam no solo. “O ponto de sobrevivência dela é o fruto”, explica Armando Sá, diretor de defesa vegetal da Associação de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab). Frutos com qualquer idade podem ser infectados, mas aqueles com até 90 dias estão mais vulneráveis à doença.
Os países latino-americanos afetados pela monilíase sofreram uma redução drástica na produção de cacau. O Equador, por exemplo, registrou cerca de 47 mil toneladas exportadas do fruto em 1917.
Depois do estabelecimento da monilíase, juntamente com a vassoura-de-bruxa, o número caiu para 10,5 mil no ano de 1933.