Pesquisador questiona a relação entre o etanol e o preço do açúcar

09/02/2010

Pesquisador questiona a relação entre o etanol e o preço do açúcar

 

O etanol tem pouca influência na variação do preço do açúcar. É isto que indica a dissertação Biocombustíveis e Culturas Alimentares: um Estudo das Relações de Causalidade entre os Preços do Açúcar, do Etanol e do Petróleo no Brasil, do economista André Souza de Melo, defendida em março de 2009 no Programa de Pós-Graduação em Economia da UFPE (Pimes). O trabalho foi realizado sob a orientação do professor Ricardo Chaves.

André Melo ressalta que a preocupação mundial com o meio ambiente e o baixo custo da produção (o menor do mundo) tem estimulado o Brasil a substituir os combustíveis fósseis por fontes alternativas, como o etanol. Exemplo disso é que, apesar das indústrias brasileiras produzirem simultaneamente açúcar e álcool, 12 das 19 indústrias recentes do País estão produzindo apenas etanol.

"A motivação econômica para a produção de biocombustíveis é estabelecida pelo baixo custo e pela conveniência oriunda da produção doméstica, substituindo o petróleo, fonte de energia combustível cujo preço atingiu patamares acima de US$ 100,00 e depende da incerteza de regiões voláteis politicamente", explica o economista, na dissertação.

A relação entre os preços do etanol, do açúcar e do petróleo pode ser explicada desta maneira: a alta no preço do petróleo condiciona o aumento da produção de etanol, diminuindo assim a produção do açúcar. A diminuição da oferta desta commodity condiciona o aumento do preço do açúcar.

Portanto, segundo o pesquisador, a variação do preço do açúcar decorre muito mais da variação do petróleo que propriamente do etanol. Um dos motivos apontados por André Melo para o benefício do preço do etanol foi a introdução de veículos flex (álcool gasolina) na frota brasileira. Já o preço do petróleo influencia o preço do açúcar e do etanol, mas não é influenciado por estes.

O autor da dissertação destaca a importância do Brasil no setor de biocombustíveis: segundo colocado mundial, com ênfase na produção de etanol a partir da cana-de-açúcar. Ele destaca também que a consolidação do País no cenário internacional remonta às origens do Programa Nacional de Álcool (Proálcool). Uma das razões apontadas por André Melo para a derrocada do programa foi a excessiva centralização governamental.

De acordo com André Melo, a utilização da cana-de-açúcar barateia a produção brasileira, em oposição ao etanol norte-americano, produzido a partir do milho. Enquanto o etanol brasileiro tem custo de US$ 0,219 por litro de combustível, o americano custa US$ 0,289, também por litro. Esse desenvolvimento do etanol da cana-de-açúcar, juntamente com o aumento da produção de petróleo, é extremamente significativo para a economia nacional, diz o economista. "O PIB atual é 35% maior, entre 1980 e 2008, devido à produção doméstica de petróleo e o desenvolvimento do etanol de cana-de-açúcar", afirma.

O economista explica que, muitas vezes, os exportadores do mercado sucroalcooleiro têm preferência pela produção do açúcar em detrimento à do etanol, o que acaba causando choque no preço deste álcool. Segundo o autor da dissertação, esta "preferência" se deve à tradição exportadora do Brasil, lembrando que 2/3 do açúcar produzido no País são voltados para o mercado externo.

"O Brasil é um dos principais atores na dinâmica do mercado sucroalcooleiro. Como ele é o principal produtor e exportador de açúcar do mundo, ele tem influência no preço internacional. Já no caso do etanol, o Brasil possui vantagem comparativa na produção deste biocombustível em relação aos outros países produtores de etanol, como os Estados Unidos que produz o etanol de milho", comenta.

O autor da pesquisa ressalta a importância de futuros trabalhos sobre o impacto do etanol no mercado alimentício, acreditando na relevância deste para o estabelecimento de preços no ramo das commodities.

"É preciso fazer uma investigação mais aprofundada sobre causalidade do preço do etanol no preço de outros elementos essenciais, como soja, arroz, feijão, milho e carne, além de analisar outras fontes de biocombustíveis, como o milho norte-americano e a canola europeia a fim de comparar resultados com o caso brasileiro", expõe o economista, na dissertação.

MAIS INFORMAÇÕES

André Souza de Melo
E-mail: andredesouzam@gmail.com

Fonte:
Agência de Notícias da UFPE
Ana Laura Farias - Jornalista
Tel.: (81) 2126-8024
E-mail:
ascom@ufpe.br

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