Queda do dólar ameaça recuperação dos fruticultores

15/03/2010

Queda do dólar ameaça recuperação dos fruticultores

 

É difícil encontrar algum produtor que não acompanhe a variação diária do dólar na região de Juazeiro – polo da fruticultura no lado direito do Vale do Rio São Francisco.  Depois de um 2009 de crise no mercado internacional e de um período de chuvas atípicas, que reduziram a produtividade, os agricultores dizem que a expectativa de recuperação para quem exporta está comprometida pela desvalorização do dólar. Em um ano,  a cotação da moeda caiu 23%, sendo que em apenas 30 dias a moeda desvalorizou 4,34%.

Quando a moeda norte-americana está valorizada, os fruticultores que exportam conseguem perceber menos as barreiras que alguns produtos brasileiros têm no exterior. “O Brasil paga entre 8% e 14% a mais no preço final dos produtos que vão para a União Europeia, e isso representa 15% a mais no bolso do produtor”, reclama o presidente do Instituto da Fruta do Vale do São Francisco-Bahia, Ivan Pinto da Costa. Enquanto isso, o Chile, principal concorrente dos produtos locais, fizeram acordos bilaterais, aponta. “O Brasil está numa situação difícil porque só resolve através do Mercosul ou da Rodada de Doha, mas nada disso tem andado”, avalia.

A uva e a manga são os principais produtos para exportação na região, que trabalha ainda com melão, goiaba e bananas, entre outros produtos agrícolas, como a cebola.

De acordo com o Instituto da Fruta, os preços dos produtos no Vale do São Francisco caíram 70% durante a crise internacional, o que levou a dívida de muita gente a sair do controle. O setor conseguiu apoio do governo, por meio de financiamento com o Banco do Nordeste, mas não contava com o cenário negativo. “Negociamos com o dólar a R$ 2,30 e a perspectiva de uma safra excelente”, lembra Costa.

O que veio foi uma exportação de 54 mil toneladas de uvas, o que representou uma queda de 34% em relação a 2008, quando o Vale exportou 82 mil toneladas. Com a manga, outra cultura forte na região, a redução foi de 24%. O resultado foi a conhecida perda de 10 mil postos de trabalho, quando só em Juazeiro e Petrolina o número de empregos gerados pela fruticultura caiu de 52 mil para 42 mil, de acordo com Ivan Costa.

Na época do chamado “pico de safra”, entre os meses de julho e outubro, cerca de 120 mil hectares do Vale do São Francisco chegam a empregar, diretamente na colheita e indiretamente em serviços como transportes, etc., 240 mil pessoas. “Só a uva ocupa 12 mil hectares e emprega 72 mil”, destaca Costa.

Depois da crise

“Estamos começando a enxergar a luz no fim do túnel depois da crise”, afirma Suemi Koshiyama, da Special Fruit, há 26 anos no Vale do São Francisco. O importante mercado dos Estados Unidos já voltou a consumir as frutas brasileiras. “A Europa, em menor escala, também”, completa, fazendo coro apenas para uma solução em relação à política cambial.

“Na fruticultura, 50% dos gastos são com a folha de pagamento. É uma cultura que gera empregos”, diz. Só ele emprega regularmente mil funcionários e chega a 1,8 mil durante a safra em 200 hectares de terra com uva e 500 com manga. “Na época da safra, são 20 ônibus para levar e trazer os trabalhadores”, conta. Suemi brinca: “Quando a colheita é boa, o gerente do banco sabe pela movimentação nas contas do pessoal do comércio de Juazeiro”.

A principal expectativa do produtor para 2010 é conseguir voltar aos patamares anteriores à crise. “Ano passado, foram cinco mil toneladas de uva para o exterior. Este ano, quero voltar a mandar seis mil”, explica. Para chegar lá, está separando 30% da propriedade para desenvolver uma nova variedade de uva mais resistente à água.

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