Árdua caminhada trouxe 5 mil sem-terra a Salvador

27/04/2010

Árdua caminhada trouxe 5 mil sem-terra a Salvador

 

Multidão saiu de Feira de Santana no último dia 19, chegando à capital baiana ontem. Pedem terras para viver e condições para criar os filhos

Em meio a cinco mil pessoas de rostos cansados e marcados pelo sol, andava o garoto Fernando de Souza, 12 anos.

Por quê? "Porque gosto". Sem oentendimentodaluta social pela terra, mas já dentro dela, ele andou firme, em fila, durante oito dias, de Feira de Santana a Salvador, na marcha do Movimento dos SemTerra (MST), que chegou ontem a Salvador para tentar convencer as autoridades a assentar de imediato 25 mil famílias sem-terra na Bahia e a melhorar os assentamentos de outras 10 mil.

Representantes da Secretaria Estadual de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) receberam líderes do movimento ontem, mas não houve fechamento deacordo.Hoje, às 10h,amarcha dos sem-terra segue da Rótula do Abacaxi até a Seagri, no Centro Administrativo.

Por lá, prometem ficar acampados até fechar negociação, segundo o diretor do movimento, Márcio Matos.

O garoto Fernando segue junto com a marcha. Ele é da cidade de Casa Nova, norte do Estado, localizada a 572kmde Salvador. Está no movimento desde os 5 anos, e tem dois irmãos (5 e 7 anos) que nasceramemassentamentos.

Essa foi sua segunda marcha, então já sabebemoquefazer: caminhar sem sair da fila. Esseéoprincípiobásicodamarcha, cuja realização demanda não só um exército de participantes, mas também de organizadores.

"A gente tem que manter o pessoal na fila, não pode sair, O nosso povo já tem experiência, só uns novatos que às vezes saem", afirmou Cícera Martins, 42 anos,dacidade de Barreiras. Ela é há dez anos dirigente de brigada da regional oeste, formada por 150 pessoas. A marcha contou comasnoveregionaisdoMST na Bahia, com pessoas de diversas cidades do interior.

Durante a marcha, cada regional, explica Cícera, possui dois dirigentes de brigada, sempre um homem e uma mulher. Para a fila não se dissipar, além de gente como Cícera, tem aquelas como Anelita Fernandes, 35. "Eu fico com um balde, um funil e uma jarra e vou enchendo os vasosdeáguadas pessoasnas fileiras, para ninguém precisar sair pra buscar água". Foram 150, chamemos assim, "agentes da água" e três carrospipa.

Os 50 seguranças, de coletes pretos, com foice ou pedaçosdepaunasmãosefacão na cintura, também mantêm a ordem na fila. Da saída até achegada,foramemmédia15 km por dia. Entre as paradas, teve gente com queda de pressão e dores musculares.

"Sealguémpassarmal,douos primeiros socorros e os carros de apoio (seis) levam para as brigadas", afirmou Maria Costa, 51. Às 10h30 de ontem, a brigada mais próxima era a Estação do Metrô, acesso Norte, naRótuladoAbacaxi,onde as cinco mil pessoas montaram acampamento.

Em duas fileiras, movendose pelas beiradas da pista, a marcha causou impacto no trânsito na altura de CampinasdePirajá, quandooacesso do bairro à BR-324 foi temporariamente bloqueado pela polícia militar. Congestionamentos também foram vistosnaAv.ACM,sentidoRótula, noRetiro,noCabulaeAv.

San Martin. A marcha tomou toda a Av. Barros Reis até chegar à Estação do Metrô.


Nova ocupação e negociações

Enquanto os cerca de cinco mil integrantes do MST chegavam a Salvador, era anunciada a mais recente ocupação do movimento na Bahia.

No final de semana, cerca de 40 barracos foram erguidos na Fazenda Colatina, a cerca de30kmdeItamaraju,cidade a 743 km de Salvador.

Na capital baiana, hoje, às 14h, representantes do MST têm novo encontro na SecretariadaAgricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri), com o secretário Eduardo Sales.

Para amanhã, está marcada reunião com o Incra,em Brasília. O líder do MST, Márcio Matos, afirma que não houve avanços nas primeiras discussões. "Não fomos atendidos nos dois principais eixos da pauta: assentamento dos acampados e infraestrutura onde já existe assentamento", afirma. Márcio diz que o grupo de 5 mil pessoas só sai da Seagri após ser atendido nos itens da pauta.

O secretário Eduardo Sales diz que a pauta do movimento é extensa e diversificada, incluindo ações de várias secretarias.

"Queremos ajudar.

Vamos fazer gestão junto ao governo federal e, no âmbito estadual, buscar o que estiver ao nosso alcance".

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