Vidas secas e produção de leite em Senhor do Bonfim
Donaldson Gomes
A história da região de Senhor do Bonfim pode ser contada a partir das secas. Elas provocaram mudanças fundiárias importantes, que reduziram a existência de grandes propriedades.Foram elas também que fizeram o homem buscar debaixo da terra, com a mineração, a riqueza que o solo árido negou nos períodos de estiagem.
Há algum tempo, falou-se em acabar com a seca, ideia quechegou a constar nas promessas de muitos políticos.Mas o sertanejo sabe que o regime irregular de chuvas é uma realidade.
O acesso à água para consumo humano foi garantido em Bonfim apenas recentemente.Em alguns bairros mais distantes do centro, como Bonfim III e Pebinha, chegou-se a ficar 15 dias sem água nas torneiras. Hoje, chega dia sim, dia não.
No distrito de Quicé, 80% dos 15 mil litros de leite produzidos diariamente são provenientes de pequenos produtores.Eles se reuniram por intermédio da Associação de Pequenos Agricultores de Quicé e, com parcerias externas, montaram, há um ano, um laticínio que já não dá conta da demanda. “Os benefícios são o pagamento certo para a entrega da matéria prima e o dinheiro reinvestido na própria comunidade”, aponta a coordenadora dolaticínio Denildes Rocha dos Santos, a Dada: “O transporte dos produtos é o gargalo atual”. Os produtores já têm pedidos para Juazeiro, Salvador e outras cidades, mas as entregas ficam restritas à região: “Com veículos refrigerados, seria possível atender a todo o Estado”.
Criador de ovelhas da raça dorper, Eduardo Teixeira cobra incentivos para os pequenos produtores. O investimento em assistência técnica é a principal demanda. “O problema é que tem gente que prefere ficar mandando carros-pipa”, diz.
No distrito de Tituaçu, a história da luta para viver da terra data de 1800, quando a negra Mariinha Rodrigues chegou à região fugida de Salvador e deu origem ao quilombo.A comunidade tem projetos para produção de mandioca e galinhas caipiras.O aposentado Epifânio Sidônio Rodrigues, de 90 anos, lembra muito bem da seca de 1932. “Derrubei muito licurizeiro para comer a massa do tronco”, lembra ele, um dos poucos a permanecer na comunidade quilombola.
Essa massa era uma das poucas opções para comer.“Chega a ser mais seca que a tapioca”, afirma.