Região Sisaleira pede ajuda estadual para se desenvolver

10/09/2010

Região Sisaleira pede ajuda estadual para se desenvolver

O semiárido baiano é responsável por 90% de todo o sisal do Brasil. A cultura responde pela geração de emprego e renda para mais de 700 mil pessoas na Bahia em 35 cidades diferentes. Isso tudo apesar de apenas a fibra ter uso comercial – correspondente a 5% da planta.

Na região chove pouco e não passam grandes rios. Os municípios onde não há produção sisaleira crescem em ritmo lento.Há muito tempo, a cultura é a única coisa que dá certo. Emprega intensivamente mão de-obra.Em torno de uma máquina de desfibrar sisal trabalham cinco pessoas. Uma corta a folha.Tem outra que carrega até o cevador, que por sua vez opera a máquina de desfibrar, enquanto o resineiro mantém o equipamento limpo. Por fim, ainda precisa-se de alguém para estender a fibra.

Hoje em dia é comum ver cabras nas plantações de sisal, o que os produtores enxergam como oportunidade de completar os ganhos com a terra.Na região sisaleira também já existem algumas indústrias, tanto aquelas ligadas ao beneficiamento e processamento da produção local, quanto outras, gerais, atraídas pelos incentivos dados em troca dos empregos.

“Não podemos mais jogar fora 95% de um produto como este”, diz o diretor-executivo da Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira (Apaeb), Ismael Oliveira.

Existem projetos para a utilização do resíduo do produto na fabricação de ração animal, do grão na substituição da fibra de vidro na indústria automobilística, para substituir a lenha e até para biofertilizantes.
“Dependemos dos estudos para o desenvolvimento da cadeia. Em 30 anos, praticamente não tivemosapoio de governos”, dizo diretor da Apaeb.

A desvalorização do dólar diante do real diminui a rentabilidade do negócio que tem no mercado externo70% das vendas. Metade da produção ainda sai do País como matéria-prima. Resultado,o
número de empregos nolocal que já chegou a 600, atualmente é de 250. Os produtores alcançaram algumas conquistas nos últimos anos com o preço mínimo para o produto. “A situação melhorou com ações para evitar o atravessador", diz Oliveira.
 
Entre o temor do desemprego e o medo da amputação

Aos 50 anos, Dionísio Gonçalves de Souza conseguiu o primeiro emprego com carteira assinada, graças ao sisal.Antes da fábrica de tapetes, passou pela máquina de desfibrar.“Era horrível, mesmo quem não sofreu amputação, já se cortou”, diz.

Renildo Jesus Viana, 38 anos, ainda está na fase da máquina de desfibrar. “Não tem outra coisa para se fazer por aqui”, acredita. Há dez anos opera a máquina recebendo por produção, numa média de R$ 30 por dia de trabalho duro. A mulher cuida da casa e dos três filhos no povoado de Junco.“Quem trabalha na máquina tem muito medo de acidente”, reconhece.Naslavouras a contratação é por empreitada, sem garantias trabalhistas. “Se eu adoecer, ou se acontecer um acidente comigo, fico parado e sem receber nada”, diz.

João Almeida Ramos deixou uma vida próspera em Salvador, onde trabalhava com táxis especiais, para voltar à região do sisal. É das sobras de tapetes e de outras partes da planta que não são utilizadas comercialmente que ele vive como artesão há 24 anos. Uma destas partes é a flecha, tronco que nasce depois do quarto corte na planta – comparável ao bambu em resistência e uma barreira intransponível para os cupins.Nas mãos dele, o material se transforma em mesa,abajour e o que der na cabeça.

“A margem de lucro é interessante, poderia ajudar muita gente”, acredita Ramos, se houvesse mais espaços para a comercialização. A produção dos artesãos de Valente dificilmente chega a quem está fora da cidade. “Já tentei sair daqui para vender emSalvador,masa gente gasta saindo de lojaemloja e não compensa”, reclama.

   

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