Sisal baiano é certificado pela ISO e deve ganhar novos mercados em 2011

23/11/2010

Sisal baiano é certificado pela ISO e deve ganhar novos mercados em 2011

 

 

A produção baiana de sisal deve ganhar novos mercados nos próximos meses. Em Valente, a 238 quilômetros de Salvador, a Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira (Apaeb) foi certificada pela ISO, sigla em inglês que significa Organização Internacional para Padronização. Com a certificação, concedida pelo Instituto Baiano de Metrologia e Qualidade (Ibametro), a diretoria da Apaeb espera que o sisal seja utilizado, inclusive, pelo setor automobilístico nacional e internacional.

O reconhecimento, que abre as possibilidades de novos negócios, é fruto de uma ação do programa Progredir, desenvolvido pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), que apoia o Arranjo Produtivo Local (APL) do Sisal. A certificação foi concedida porque se constatou que a Apaeb segue à risca orientações como utilização de equipamentos de proteção individual (EPIs) pelos trabalhadores associados, ausência de trabalho infantil e de danos ao meio ambiente.

A produção de 140 desfibradoras, que evitam a mutilação de quem utiliza as máquinas, viabilizada por meio de um convênio entre os governos estadual e federal, foi outro fator que contribuiu para a concessão da ISO à entidade.

Segundo o diretor executivo da associação, Ismael Ferreira, o sisal é a principal atividade econômica da região. "Há muito tempo discutimos a possibilidade de novos usos para a fibra. Entre essas discussões está a utilização pela indústria automobilística. Para isso, precisávamos realizar todo um trabalho de certificação, inclusive a ISO 9001."

Expansão – Peças como pára-choques, caixas de vidro, painéis e maçanetas internas poderão ser utilizadas na produção de automóveis, a partir de um composto feito com partes iguais (1/3) de sisal, polipropileno e plástico reciclado.

"Ao ser submetido ao processo de aquecimento, o material pode ser moldado e transformado em diversos acessórios para veículo", explicou Ferreira. Ele informou que a Ford já demonstrou interesse em usar o material. "A ideia é que sejam utilizados nove quilos de sisal por veículo produzido."
 

Vinte municípios desenvolvem a atividade


No Território do Sisal, 20 municípios desenvolvem a atividade sistematicamente. O engenheiro agrônomo da Secti, Robinson Andrade, é o coordenador do APL do Sisal. "Como não chove muito, a atividade sisaleira é a única cultura desenvolvida o ano todo na região."

Estima-se que cinco mil produtores tenham participado das atividades promovidas pelo APL, que é apoiado pelo Progredir. São dias de campo, seminários sobre a forma de lidar com as doenças da planta (Agave sisalana), entre outros eventos realizados para tocar a produção.

"Desenvolvemos o Progredir com a parceria do Sebrae. Trazemos inovação para o APL, sempre buscando melhorar as instituições e as empresas que atuam no segmento", afirmou Andrade.

O representante da Secti revelou que três empresas já estão no processo de certificação e, paralelamente, é realizado um trabalho com o propósito de adequar outras empresas e associações para a certificação da fibra, melhorar a qualidade da matéria-prima e a competitividade no mercado externo, além da abertura de novos mercados, a exemplo da indústria automotiva, que se apresenta como possível comprador em potencial.

"Também temos ações de acesso ao mercado, como feiras dos grupos de artesanato, consultorias em diversas áreas, sempre visando potencializar as empresas do Território do Sisal, que trabalham com a cadeia produtiva", declarou o engenheiro-agrônomo.


De pai para filho


O sisal é uma fibra extraída de uma planta da família das agaváceas. Após o corte das folhas longas, a fibra é passada pela máquina que a separa da cutícula e da bainha. Em seguida, começa o processo de secagem ao sol.

Quem vê a planta espinhosa, verde-escura, no solo árido e sob o sol causticante, não consegue imaginar que dela podem ser produzidos tapetes, cordas, bolsas, cestos, entre outras peças desenvolvidas pelos artesãos baianos.

Conhecido como Zé de Jorge, numa referência ao pai, o pequeno agricultor José Elias Lima Lopes começou a produzir sisal ainda na infância, quando trabalhava na roça da família.

José Elias vive com a mulher, filhos, genro e netos na zona rural de Valente, onde também são criados caprinos e ovinos para complementar a renda.

"Aos 11 anos, comecei a trabalhar com sisal, carregando fibra. Já fiz todos os processos do sisal. Até hoje sobrevivo disso. Todo mundo daqui da região sobrevive dessa atividade. Nossa região é muito seca. Por isso temos que fazer o manejo correto para ter um produto de boa qualidade, senão não temos um preço bom. O que eu produzo aqui vai para a indústria. Lá eles tratam a fibra, fazem todo o processo e comercializam", contou Zé de Jorge.

Segundo ele, o toque feminino também está presente na cadeia produtiva. "As próprias mulheres confeccionam o artesanato e não precisam ir para a cidade procurar emprego. Isso já ajuda a família."


Bahia é líder na produção


De acordo com dados da Apaeb, a produção de sisal diminuiu nos últimos anos por causa das crises financeiras e questões cambiais. Mesmo com as adversidades, o Brasil continua como o maior produtor mundial da fibra.

A Bahia é o estado líder absoluto na produção, com 110 mil toneladas por ano, o que corresponde a 95% da produção nacional.

Atualmente, mais de 500 famílias são associadas à Apaeb, mas outras milhares são beneficiadas pelas ações e pesquisas desenvolvidas na região.

"Nossa associação tem 30 anos de existência. Temos quase quatro mil famílias integradas em 15 cidades. Não precisa ser sócio para se beneficiar dos projetos", disse Ismael Ferreira.

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