Steviafarma desenvolve tecnologias exclusivas para colher e processar
À primeira vista, a máquina mais parece um trator velho. Ao ser ligada, faz um barulho estrondoso e é difícil acreditar que dará conta do serviço que vem pela frente. A máquina em questão é a colheitadeira desenvolvida pela Steviafarma que, junto com outras máquinas e equipamentos industriais, faz parte de um nada desprezível aparato tecnológico feito "em casa" especialmente para atender a produção do adoçante.
A máquina que cedeu sua carcaça e seu motor, de fato, é bem antiga, conta o responsável agrícola do projeto, Zander Martinez. "Um Massey Fergusson da década de 80", revela.
O que para forasteiros é nada mais do que uma "geringonça" é tratada como obra-prima pelos construtores. O velho trator recebeu molinete para puxar as plantas, uma faca especial posicionada debaixo da máquina para cortar a estévia rente ao solo e uma caçamba. A planta é sugada para esse recipiente, na parte superior da colheitadeira "frankenstein", que dará conta, segundo Zander, de todo o trabalho que vem pela frente.
Ele se refere à colheita da área de 200 hectares plantada com estévia. A expectativa é de um rendimento de cerca de 3 toneladas de folha por hectare por ano. O trabalho se distribuirá em duas colheitas cheias - novembro e fevereiro - e uma intermediária, em maio.
"Não existe uma colheitadeira de estévia fabricada pelas empresas de máquinas agrícolas convencionais. Tivemos que desenvolver uma", diz Zander. Como não há ingredientes adoçantes na delicada flor da estévia, a colheita tem que ser feita quando a floração atinge, no máximo, 5%.
Do campo, a folha é levada para um secador automático, também adaptado pela empresa. Após a secagem, as folhas, já organizadas em sacas, saem da fazenda, em Ângulo (PR), rumo à fábrica, a 35 quilômetros do local, em Maringá.
O processo industrial, que também passou por adaptações particulares dos engenheiros da Steviafarma, consiste, a grosso modo, na preparação de um grande chá. A estévia "descansa" por duas horas em uma solução de 50% de água e 50% de estévia.
É o tempo suficiente para que o doce da planta passe para o caldo, que segue depois por processos de clarificação e cristalização. "A solidificação, que sucede a clarificação, é parecida com o processo pelo qual se faz o café solúvel", explica Airton Goto, gerente industrial da Steviafarma.
Muito do que se faz na indústria paranaense é comum em outras processadoras, mas algumas adaptações são muito particulares da extração do doce da estévia e, por isso, foram patenteadas, conta Goto. De forma geral, explica ele, há pouca informação disponível sobre que tipo de tecnologia os outros países usam para extrair o doce da estévia.
Em todo o mundo, o cultivo de estévia está estimado em 30 mil hectares, dos quais 25 mil estão em terras chinesas. O Paraguai, de onde a planta é nativa, é o segundo produtor mundial, com cerca de 800 hectares cultivados.
O fomento à produção paraguaia foi feito na década de 80 pelos japoneses, que queriam importar a planta para produzir adoçante. "Mas o transporte inviabilizou a operação, o Japão desistiu da América do Sul e deixou os paraguaios com a estévia na mão", conta Fernando Meneguetti, sócio e membro do conselho da Steviafarma.
As informações oficiais sobre a estévia são escassas. Mas a estimativa é que existam 10 indústrias de extração de estévia no mundo, das quais cinco na China e duas no Japão, conforme dados contidos no livro "Produção de estévia: do plantio à comercialização", publicado neste ano pelo Instituto Agronômico de Campinas.
Projetos como esse da Steviafarma começam a amadurecer em outros países da América Latina. A americana Cargill desenvolve há sete anos uma cadeia de fornecedores de estévia, em parceria com uma cooperativa da região norte da Argentina. Até 2013, mais de 50% do suprimento de estévia da multinacional serão provenientes dessa região. (FB)