Preço do milho prejudica rotação de culturas no oeste

17/01/2011

Preço do milho prejudica rotação de culturas no oeste

 


Apesar dos benefícios para o solo, com o a redução da incidência de pragas e doenças em outras culturas, são cada vez menores as áreas cultivada

 

JULIANA BRITO

O milho está perdendo espaço no oeste baiano. O cereal, usado para fazer a rotação de cultura nas lavouras de soja e algodão,deveria ocupar entre 25% e 30% das lavouras, mas está em apenas 9% . A concorrência com produtores de outros estados e a desvantagem no preço em comparação às demais culturas têm desestimulado a produção.

A redução da área destinada a o milho ocorre apesar dos benefícios da cultura para a lavoura de soja e da necessidade do adequado processo de rotação. A rotação correta exige o plantio de soja por um ano, seguido de algodão e milho nos dois anos seguintes, ou de soja por dois anos, seguido de milho por um ano.

“Um terço das áreas cultivadas faz corretamente a rotação”, estima o conselheiro técnico da Associação de Agricultores e Irrigadores da Bahia (Aiba), Antonio Grespan.

As demais áreas apresentam a rotação irregular ou a monocultura da soja. “A razão disso é a depreciação que o milho teve nos últimos dois anos", resume.

O conselheiro ele mesmo produtor de soja e milho tem reduzido a participação do cereal na própria lavoura, embora se preocupe em tornar a redução a menor possível. “Tenho entre 15% a 20% da área plantada com milho”.

Sustentabilidade A redução do cultivo de milho põe em risco a longevidade da lavoura. “O milho diminui a incidência de pragas e doenças nas outras culturas. A diminuição da área prejudica de maneira geral o solo produtivo do oeste. Produz-se menos soja e com um custo mais alto”, explica o secretário de Desenvolvimento Econômico e Agronegócios de Barreiras, Celito Breda.

Outra consequência negativa da redução de milho é a proliferação na soja do mofo branco. O fungo, que surgiu na lavoura em 2010, este ano já começa a aparecer na Bahia.

Para o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, Miguel Gontijo Neto, não há muita alternativa à rotação quando se planta soja.

“A rotação é necessária quando trabalhamos com culturas que aportam ao solo pouca matéria orgânica, como a soja e o algodão. Se a cultura trabalhada fosse o milho, por exemplo, não seria necessária a rotação, pois ele tem grande produção de biomassa em seu ciclo”, afirma.

Mato Grosso Uma das causas do desânimo dos produtores baianos é a concorrência com o Mato Grosso, natural consumidor da produção do oeste. “O milho do Mato Grosso chega mais barato ao mercado porque, ao contrário da Bahia, que só tem uma safra, lá eles têm duas”, comenta Gontijo, que completa. “O Mato Grosso tem grande força política e uma agricultura forte”, disse, destacando que em relação à supremacia mato-grossense, Minas Gerais e Paraná também tiveram prejuízo . O milho deveria ocupar entre 25 % e 30% da área do Oeste, mas está em menos de 10%. A rotação de culturas garante a proteção sanitária da lavoura e a saúde do solo

 

Instabilidade de cotação desanima o agricultor

 

“Este ano vamos ter uma produção histórica de milho”, afirma o produtor e conselheiro técnico da Aiba, Antonio Grespan, ressaltando que o cenário seria bastante promissor se não fosse por uma lacuna do setor: a comercialização.

"O agricultor sabe quanto vai custar plantar, mas não sabe por quanto vai vender", desabafa. Além da competição com o estado do Mato Grosso, há questões climáticas o milho é sensível à estiagem e uma desvantagem comercial: ao contrário do algodão e da soja, o milho não tem preço fixado no mercado futuro.

“Um produtor descapitalizado pode conseguir empréstimo para a soja, mas não para o milho”, diz Grespan. “A soja sempre tem liquidez. Ninguém quer abrir mão da área da soja para plantar milho”, afirma ele.

O produtor acredita que uma política de armazenagem garantiria maior competitividade para a produção do Oeste baiano. “Para uma granja em Fortaleza, é melhor negociar como Nordeste que como Mato Grosso, mas nem sempre é isso o que acontece”, avalia Grespan.

O secretário de Agronegócios de Barreiras, Celito Breda, pensa que a solução está na exportação e no comércio alternativo. O governo estadual tem investido na agroindustrialização como meio de escoar a produção. A fábrica da Vitamilho, em Barreiras, e as da Mauricéa e Coringa, no município de Luís Eduardo Magalhães, são promessas neste sentido.

Mas Grespan e Breda acreditam que a questão não seja da competência estadual. “O Estado poderia intervir com incentivos e isenção de impostos, mas a solução, deve vir da União”, dizem.

Potencial Apesar do decréscimo da área plantada, esta commodity tem se desenvolvido bem no oeste. “Se produzíssemos em 25% da área, abasteceríamos todo o Nordeste”, frisa Antonio Grespan. Apesar das dificuldades, ele defende a rentabilidade da cultura. “A receita líquida do milho é maior que a da soja, se os dois forem produzidos em grandes quantidades”, afirmou.

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