É preciso mais do que novas variedades para atrair consumidor
"Fruta você compra com os olhos". Baseado nessa conclusão, o gerente-executivo do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), Maurício Ferraz, afirma que a chegada ao mercado de variedades diferenciadas de abacaxis, que possam atrair o consumidor pelo visual e pelo paladar, é bem-vinda e desejável.
O Brasil disputa, principalmente com Índia e Tailândia, a condição de maior produtor mundial da fruta. As variedades Havaí (smooth cayenne) e Pérola e seus híbridos dominam quase a totalidade do cultivo no país - 35% e 65%, respectivamente, conforme cálculos de Ferraz.
Em sua opinião, o surgimento de produtos "de marca" nos últimos anos é um caminho promissor, mas ainda pendente de confiabilidade. O próprio Gomo de Mel, na sua avaliação, não pode ser descartado e precisa ser mais testado pelo mercado consumidor.
Não é apenas a criação de novos cultivares que pode dinamizar o mercado do abacaxi, tanto para consumo doméstico como para exportações. Segundo Ferraz, o desenvolvimento de embalagens para consumo individual, por exemplo, é uma tendência na busca por atender as exigências do mercado.
Para o especialista, tão ou mais importante do que o desenvolvimento de novas variedades é o manejo adequado das culturas tradicionais, de modo a não causar prejuízos para elas. Ferraz lembra que o Havaí, variedade mais resistente a baixas temperaturas e por isso a cultivada no Sudeste e no Sul do país, ficou "queimado" no mercado por estar sendo colhido fora de época, na estação fria - e, com isso, azedo.
Menor do que o Pérola, o Havai tem casca e polpa amarelas quando maduro. O Pérola chega a mais de 2 quilos, tem casca verde e polpa branca e é cultivado no Norte e Nordeste, onde o clima é favorável o ano todo.
O agrônomo Hélio Watanabe, do Centro de Qualidade em Horticultura da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), entende que "há espaço para novos cultivares, desde que sejam saborosos e resistentes". As variedades até agora lançadas, na sua avaliação, ocuparam um espaço muito pequeno no mercado, seja o Gomo de Mel, do IAC, ou o Imperial e o Vitória, desenvolvidos pela Embrapa.
Com base no que vem sendo dito pela equipe do IAC, o técnico da Ceagesp avalia que a variedade IAC Fantástico tem boas perspectivas no mercado de "novos experimentos", mas deixa um recado para todos que estão com planos de novos lançamentos: "Tem que ser saboroso e ser apresentado em uma embalagem bonita. É preciso também fazer testes de mercado".
"Esse negócio [de novos cultivares] só pega mesmo se agradar ao consumidor final", avalia o agrônomo Leôncio da Costa Vilar, 71, da Emater da Paraíba. Para ele, tem havido muita propaganda sem respaldo do mercado. Adepto declarado da variedade Pérola, que considera o verdadeiro "abacaxi brasileiro", Vilar possui um dos mais respeitáveis bancos de dados sobre a cultura do abacaxi no país.
Com base nessas estatísticas, que vêm desde 1932, o agrônomo mostra que seu Estado lidera a produção de abacaxi do país de 1932 a 2009, com 23,99% do total, seguido de Minas (21,67%) e Bahia (10,75%). São Paulo, que liderou nas décadas de 1930 e 1950, ocupa a quarta posição, com 6,04% da produção no período. Em 2009, última estatística disponível, Minas liderou a produção.
Na década passada, a produção brasileira avançou de 2,72 milhões de toneladas, em 2000, para 3,54 milhões em 2007, descendo para 2,98 milhões em 2009. As estatísticas de preços do Ceagesp, concentradas nas variedades Havaí e Pérola, mostram uma evolução quase linear dos preços no atacado desde 2007. O Havai, que teve preço médio mensal de R$ 2,11por unidade em 2007, sofreu uma queda em 2008 (R$ 1,83), recuperando-se nos anos seguintes.
No Pérola, o preço subiu constantemente, passando de R$ 2,47 em 2007 para R$ 3,55 na média dos três primeiros meses deste ano, uma alta acumulada de 43,7%, com a ressalva de que os dados deste ano vão apenas até março, período no qual a série mostra que os preços foram mais altos em todos os anos, exceto em 2010.
O mercado externo é um alvo desejado, mas não enraizado na abacaxicultura brasileira. Tanto que de 2009 para 2010 as vendas externas despencaram de já incipientes 19,82 mil toneladas (US$ 10,58 milhões) para irrisórias 1,89 mil tonelada (US$ 998 mil). Segundo Ferraz, do Ibraf, em um mercado dominado por multinacionais, foi decisiva para a queda a saída do país de uma grande empresa do setor. Nos dois anos, a Argentina foi o maior importador, com quase 70% do total em 2010 (23,9% em 2009). (CS)