Quando uma mula pode valer mais que um carro
Pelo menos não no interior do Brasil, onde cresce a procura por muares "de elite", uma nova categoria de mula distante do estereótipo do animal pequeno e desinteressante. Resultado de experiências genéticas que lhes conferiram mais altura, imponência e novas habilidades, esses animais tiveram uma valorização impensável para a raça. Por alguma beleza e certos dotes, uma mula de elite é vendida hoje por entre R$ 30 mil e R$ 70 mil. As mais cobiçadas - e já há dezenas - vão muito além.
"Me ofereceram R$ 100 mil por essa aqui e eu não aceitei. Ela vale mais", diz Robson Modesto, proprietário de Monalisa, mistura de um jumento com uma égua da raça campolina que herdou o porte da mãe e a cara do pai. "O segredo é arranjar égua boa", explica Robson, "porque o muar, em geral, puxa o corpo da mãe e as extremidades do pai".
Monalisa vale tanto porque, além do porte e do pelo brilhante, também aprendeu a marchar, característica que fez explodir um outro mercado - o de competições regionais e nacionais de marcha de muares, que movimentam milhões de reais com a compra e venda de animais e de "traias" - os acessórios de prata, alpaca e couro que garantem classe às mulas e seus cavaleiros.
Chamadas de "festas", essas competições ganharam o gosto dos brasileiros, que antes viam nesses animais apenas um meio para cavalgadas de passeio. Estima-se que a cada duas semanas uma prova com muares seja realizada em cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais (Estados com herança tropeira) e, mais recentemente, no Centro-Oeste.
A maior e mais rica festa de muares acontece todo mês de janeiro em Iporá, no oeste goiano. Durante quatro dias, uma multidão de muladeiros de todo o país se reúne em uma propriedade de 6 hectares para "falar só de mula, cavalgar sem trégua e exibir seus animais", diz João Benedito de Souza Vieira, presidente e mentor da Associação de Muladeiros do Oeste Goiano (Amog). Ali só entram os caminhões de transporte dos muares. Carros ficam de fora.
Entre uma cavalgada e outra, um olho se espicha e uma mula é vendida. É "uma arrogância só", brinca Vieira. Mas nem só as "meninas de ouro" dos muladeiros são negociadas. Há quem carregue comitivas de até 100 mulas a esses eventos, quando é possível desovar animais jovens ou menos promissores para provas.
A primeira festa de Iporá foi em 2008, depois que Vieira decidiu colocar Goiás no calendário nacional de provas de muares. O resultado surpreendeu até os organizadores: 500 mulas apareceram, número sem precedentes. Neste ano, as inscrições mais que dobraram para 1.600 animais, de 16 Estados, movimentando R$ 2 milhões e catapultando a festa goiana à liderança no Brasil.
"Teve venda de mula até para o Acre e o Amapá", afirma Vieira. Para 2014, a previsão é de 1.800 animais. Cada mula inscrita paga R$ 120 de entrada e seu dono concorre, no fim da festa, a uma picape Hilux zero, da Toyota - que custa, por sinal, mais ou menos o mesmo que a Monalisa.
Engana-se quem pensa ser este uma espécie de resgate da cultura muladeira do interior. Nos rincões do Brasil ou mesmo próximo à capitais, mulas e burros nunca saíram de cena. Mais fortes e resistentes que os cavalos, eles são imbatíveis para os serviços pesados do campo e para cavalgadas ou romarias longas, sobretudo nos dias de sol inclemente.
"Aqui, a gente sai para cavalgar e volta cinco dias depois. Só a mula resiste a tantos dias andando, daí a paixão por esses animais", diz Vieira. Embora quase 80% dos burros e mulas brasileiros sejam voltados ao trabalho rural - há hoje 241,3 mil muares apenas em São Paulo, Minas Gerais e Goiás -, criadores e comerciantes dizem que a procura passou a ser por animais de passeio, muito devido ao aprimoramento genético.
Os manuseios, feitos em geral pelos peões das fazendas, acabaram gerando resultados que chamaram a atenção para os animais. Éguas de raças mais apropriadas em termos de porte e habilidade, como os manga-largas e o campolino marchador, passaram a ser preferidas para o cruzamento com o jumento. Com isso, seus filhos - burros (machos) ou mulas (fêmeas) - tiveram a morfologia alterada. Em outras palavras: ficaram com mais jeitão de cavalo.
Junte isso ao temperamento dócil e ao andar pacato - dizem que em cima da mula dá até para tomar uma "cachacinha" durante a cavalgada - e o que se viu foi um febre de consumo de muares. "Um tem, o outro também quer. É status", afirma Toninho Peró, organizador da Festa de Muares de Nazaré Paulista, em São Paulo, que reuniu no sábado retrasado quase 100 mulas para o torneio.
Quatro delas pertenciam à Fernando Monteiro Moraes, o Fernandão, dono de 40 muares (30 deles de elite) e mais uma cadeia de 28 lojas de móveis em Jundiaí e região. Competidor ferrenho, ele participa de quase todas as provas no Estado. Vai pessoalmente às festas, acompanha o desempenho dos animais de perto. "Vou alternando as mulas porque elas se machucam muito nas provas. Mula não nasceu para marchar", diz, mostrando o "lado B" de cruzamentos improváveis no mundo natural. Outro efeito: são animais estéreis.
Após cada competição, seus peões tomam o mesmo cuidado: aplicar o "barro branco", composto de cânfora, arnica e outros produtos, às patas do animal para ajudar na sua recuperação. Em Iporá, cada animal recebe, ainda, 7 litros de soro por causa do calor, fazendo com que o custo de manutenção mensal chegue a R$ 1 mil por cabeça.
Conhecido entre os muladeiros, Fernandão tem dois carros de R$ 250 mil, mas seu maior ativo está nas mulas. "Valem uns R$ 3 milhões", diz, enquanto posa ao lado de Rainha, sua mula de R$ 100 mil, 100 premiações e cinco derrotas. "Todos os anos ganho uma moto de prêmio e sorteio entre meus funcionários".