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22/10/2014

Açúcar orgânico e sustentabilidade: a mistura que está dando certo

 

Destaque mundial na produção de alimentos orgânicos, com área estimada em 1,5 milhão de hectares, comercialização anual em torno de R$ 500 milhões e mais de 8,2 mil produtores atualmente cadastrados, o Brasil tem ampliado o leque de alternativas oferecidas, passando de uma agricultura orgânica basicamente in natura, sobretudo de hortaliças e produtos frescos, para uma produção relevante também de processados.

O maior produtor e exportador de açúcar no mundo não fica atrás quando se trata do açúcar orgânico. Embora a classificação fiscal do convencional e do orgânico seja a mesma, o que resulta na escassez de dados oficiais que tratem isoladamente deste último em termos de mercado externo, e apesar de o cadastro nacional ainda não especificar a atividade sustentável por grupo de produtos, um olhar atento às prateleiras de lojas especializadas e, ao mesmo tempo, às práticas de empresas pioneiras no segmento mostra um cenário incipiente, mas promissor e curioso, na produção e consumo de açúcar orgânico.

"O açúcar orgânico tem uma importância estratégica porque é ingrediente de muitos produtos processados orgânicos", avalia o coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Rogério Dias. Ele atribui este novo patamar do mercado à regulamentação da produção e comercialização de orgânicos no País, a partir da Lei nº 10.831, aprovada em 2003 e efetivamente em vigor desde 2012. "O marco legal, seguro tanto para quem está comprando como para quem está produzindo, fez com que o produtor desse um salto para uma produção enorme de processados. É quando você percebe que o sistema está se industrializando", ressalta.

Dias explica que a classificação de um produto como orgânico ultrapassa a não utilização de agrotóxicos, hormônios ou transgênicos. "Há outros princípios, não é só o veneno. O consumidor começa a entender que a produção orgânica vai além dos insumos utilizados, inclui como você certifica e lida com o sistema de produção, as questões sociais e ambientais, as pessoas envolvidas no processo, as relações trabalhistas."Segundo o coordenador, a expectativa é que até o final de 2014 o cadastro nacional, que vigora há três anos e já abrange número de produtores e unidades de produção por Estado e mecanismos de controle, passe a detalhar também as atividades produtivas por grupo de produtos orgânicos. Ele avalia que, de uma maneira geral, o Brasil passou a ser um mercado importante. "A logística ainda pesa bastante porque a maioria dos produtores de orgânicos é pequeno produtor. São produtos em quantidade menor, em menor escala, e isso acaba impactando o preço do produto final", conclui.

Paralelamente à produção artesanal ou em menor escala, da agricultura familiar, por exemplo, grandes empresas do setor sucroenergético tem desenvolvido um trabalho reconhecidamente pioneiro na produção de açúcar orgânico. Dados do Instituto Biodinâmico (IBD), maior certificadora da América Latina, apontam os Estados de São Paulo e Goiás como os grandes produtores de açúcar orgânico do País. As estimativas mostram que a maior parte da produção brasileira é destinada ao mercado externo, com destaque para Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra e Holanda, países que importam o produto há mais dez anos.

É o caso da Jalles Machado, localizada no município de Goianésia (GO), na região do Vale do São Patrício. Em 2003, a usina começou o processamento de cana visando a produção do açúcar orgânico Itajá, destinado exclusivamente à exportação, conforme divulgado no site da empresa. Com um sistema baseado na eliminação do uso de fertilizantes, pesticidas e reguladores de crescimento produzidos sinteticamente e, também, na utilização da agricultura de precisão, rotação de culturas, adubação verde, minerais naturais e controle biológico de pragas, a empresa cuida das matas ciliares em suas propriedades rurais, acumulando um total de 800 mil mudas de espécies nativas plantadas, ainda de acordo com informações divulgadas no site institucional.

Líder mundial no mercado de açúcar e álcool orgânicos, a marca Native, do Grupo Balbo, é outro exemplo que se sobressai neste mercado. Lançada no ano 2000 e presente em mais de 60 países, conta com quinze mil hectares de lavoura de cana-de-açúcar orgânica certificados, distribuídos entre as usinas São Francisco e Santo Antônio, em Sertãozinho (SP), onde implantou ilhas de biodiversidade integrando áreas nativas às cultivadas. O resultado é uma produtividade 27% superior a do plantio convencional da cana, além do combate natural a pragas e retorno de algumas espécies antes consideradas extintas na região. Ao todo, mais de 330 espécies de animais vertebrados que vivem e se multiplicam nas terras das usinas, em harmonia com a natureza e a produção agrícola.

Pioneirismo no grande varejo

Pioneiro no grande varejo brasileiro a trabalhar no segmento, o Pão de Açúcar ocupa posição de destaque e conta com 600 itens orgânicos cadastrados para comercialização. A rede, que hoje possui seção própria para este tipo de produto em todas as lojas, começou a vender orgânicos há mais de vinte anos, inicialmente apenas com itens de hortifrúti, disponíveis à época, como explica a gerente comercial do Grupo Pão de Açúcar (GPA), Sandra Saboia. "Tratamos a categoria de orgânicos como diferenciadora para a marca. Nossos clientes são antenados e preocupados com a saúde e procuraram por esses itens. Como o tema de saudabilidade está no DNA da marca, foi natural que apostássemos na alimentação orgânica como uma opção aos nossos clientes", destaca. Além de itens como tomate, alface, cenoura, couve e batata, o grupo oferece manteiga, morango, cebola, pão, azeite, café e açúcar orgânicos, dentre outros.

Atualmente, duas marcas de açúcar orgânico estão disponíveis nas lojas, com preços que variam de R$ 2,99 a R$ 3,99. Um dos ingredientes indispensáveis é a integração da cadeia. A gerente explica que o grupo investe em capacitação de fornecedores, com visitas técnicas aos produtores rurais, treinamento e auditorias para garantia de qualidade. "Trabalhamos principalmente com produtores locais e familiares, totalizando aproximadamente 140. Muitos deles possuem ainda a oportunidade de comercializar seus itens com a marca própria da rede, Taeq, lançada em 2006", afirma Sandra. Além das gôndolas de supermercados, a rede conta com uma seção exclusiva de venda e entrega em casa de itens orgânicos na internet, com o Pão de Açúcar delivery.

Nicho está bem definido no País

Para o professor doutor que coordena o Grupo de Estudos em Cana-de-Açúcar da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), Edgar Beauclair, o mercado de açúcar orgânico conta com um nicho bem definido no País. "O cenário atual da produção brasileira é um mercado restrito, porque ele é direcionado a pessoas que tenham hábitos orgânicos e que, de uma forma geral, não consomem açúcar convencional ou consomem pouco açúcar orgânico", afirma. O pesquisador salienta que a produção da cana convencional já emprega práticas sustentáveis, utiliza variedades resistentes, rotação de cultura, reciclagem de nutrientes, controle biológico e parasitas naturais, à exceção de quando há desequilíbrio no campo e se faz necessário empregar defensivos agrícolas. "A cana é plantada de modo semelhante, não igual, produzida também de forma semelhante e processada de forma muito diferente", pontua Beauclair.

"A diferença está principalmente na parte da clarificação do caldo da cana-de-açúcar no processo industrial, no orgânico não pode entrar enxofre", ressalta. O processo de purificação do produto convencional, que gera um custo maior, elimina algumas impurezas consideradas naturais do açúcar pelos adeptos da alimentação orgânica. "A safra da cana, oficialmente de maio a novembro, no orgânico é mais curta, justamente de junho a outubro, no pico da maturação, durante o inverno, período frio e seco, melhor para a maturação da cana", explica o coordenador. Na prática, isso resulta em mais açúcar para o quilo de cana, com um produto com menos teor de impurezas. "São recuperados até casas decimais de gramas", salienta. Beauclair considera pequenas as diferenças entre o açúcar orgânico e o convencional, mas reconhece as questões sociais levadas em conta para a certificação do produto orgânico. Ele conta que não há estudos definitivos que comprovem ou contrariem os benefícios da ingestão de açúcar orgânico, se comparada à utilização do produto convencional. "A sacarose é o único alimento que nós sabemos que todas as formas de vida conhecidas podem utilizar como forma de energia", avalia.

Alimento é mais saudável, mas deve ser consumido com moderação

A nutricionista e professora mestre da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) Sueli Essado alerta que qualquer tipo de açúcar, seja orgânico ou convencional, deve ser consumido com moderação. "O açúcar entrou no mercado apenas para saborizar de forma doce os alimentos, não sendo essencial ao organismo, até mesmo porque quando ingerimos frutas e outros vegetais e grãos temos a glicose necessária para o corpo", explica. Membro do Conselho Estadual de Segurança Alimentar (Conesan), Sueli esclarece que o açúcar orgânico não apresenta sujidades ou resíduos químicos em sua formulação, mas tem o mesmo valor calórico do convencional e pouca diferença no valor nutritivo. "Em sua composição o açúcar orgânico contém sacarose da mesma forma, mas ele é mais grosso e mais escuro que o refinado, tem o mesmo poder edulcorante, isto é, adoçante. É muito apreciado na Europa e nos Estados Unidos pela sua qualidade", avalia.

Ela explica que o açúcar comum, de cozinha, é composto por 99,8% de sacarose, ou seja, glicose mais frutose, após o processo de refinamento. Dentre os açúcares convencionais mais utilizados estão o branco totalmente refinado, o branco cristal - com um refinamento quase completo que mantém 10% de sais minerais provenientes da cana-de-açúcar -, o demerara - que passa por um refinamento leve, sem aditivos químicos -, com grãos marrom-claros e valor nutricional similar ao açúcar mascavo, produto sem refinamento extraído após cozimento do caldo da cana que conserva cálcio, ferro e outros sais, com grau de pureza de sacarose em torno de 90%, sem falar do açúcar de confeiteiro, do açúcar líquido e da frutose.

Para a pesquisadora, o açúcar orgânico pode ser considerado mais saudável pelas características de sustentabilidade humana e ambiental. "O orgânico não traz riscos de intoxicação por agrotóxicos nem aditivos químicos e previne alergias e intolerâncias causadas pelos alimentos transgênicos, ainda em estudos, mas desde que consumido em quantidade adequada para cada fase na vida", enfatiza. Sueli explica que o cálculo da quantidade-limite de ingestão de açúcar varia conforme estilo de vida, estado fisiológico, peso, altura, sexo e idade, dentre outros fatores, mas não deve ultrapassar 10% do valor energético da dieta diária, como recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Sem perder a doçura: o sabor da saúde

Quando o austríaco Gregor Kux, 48, chegou a Goiânia (GO), 16 anos atrás, o mercado de orgânicos ainda não era representativo, não existiam associações de produtores locais e sequer havia legislação federal específica para o setor. Hoje, o proprietário da Cerrado Alimentos Orgânicos comemora uma década de loja e segue rumo ao quarto ano de restaurante, integrado ao estabelecimento, com uma clientela fiel. O negócio deu tão certo que se tornou lugar cativo e recebe em média 150 pessoas por dia, entre almoço, feira e compras.

No estabelecimento, que tem como ponto forte as hortaliças e produtos variados, são vendidas duas marcas de açúcar orgânico, numa média de 100 quilos, com preços a partir de R$ 4,40 o quilo a granel. "O açúcar não tem valor nutritivo, mas com certeza o orgânico tem muito mais vitaminas e sais minerais", pontua. Para o proprietário, toda doença vem de uma carência desses elementos no organismo. Antes de comprar o orgânico em supermercados, o especialista recomenda verificar se o produto tem a certificação pelo selo nacional de orgânicos do Mapa. Para Gregor, criar elos entre produtores, comerciantes e consumidores é fundamental neste setor. "É uma cadeia baseada na confiança", assegura. Ele traça o perfil dos consumidores conscientes adeptos à alimentação orgânica. "O cliente é uma pessoa que tem interesse em saúde e meio ambiente, formado, gosta de estudar, ler, caminhar, praticar esportes, tem de 25 a 60 anos, famílias com duas crianças, classe média alta e alta. É uma clientela fiel, gosta de valorizar o orgânico."

Pós-graduada em Recursos Humanos, Sueli Barbosa, 51, é vegetariana há vinte anos e adepta dos orgânicos há dez. A bancária aboliu o açúcar da dieta e reserva o produto apenas para bolos e receitas muito específicas e, nestes casos, utiliza o mascavo ou, ainda, o magave, extraído de um cacto, ambos orgânicos. Sucos e chás, só naturais e sem açúcar. "O açúcar orgânico é mais saboroso e deixa um gosto mais suave", relata. Com o paladar habituado, ela percebe no cotidiano o custo-benefício de uma alimentação menos agressiva. "O orgânico é mais caro em grandes supermercados e armazéns. As feiras orgânicas conseguem vender o produto mais barato que o tradicional, e com mais qualidade", relata.

"O café com o orgânico fica excelente, o sabor é muito melhor. O comum é muito adocicado", diz a proprietária de loja agropecuária Lucimar de Fátima da Mata, 54, que utiliza o açúcar orgânico também em sucos e chás há uma década. Ela enfatiza que os benefícios à saúde da ingestão de orgânicos em geral são evidentes, com uma qualidade de vida "completamente diferente". "Depois que você adere, percebe que compensa muito, pela qualidade de vida. Ajudou a baixar o colesterol", conta.

Após vinte anos atuando em empresas na área administrativa, a mineira Rose Franco, 46, trabalhou como distribuidora de uma fazenda de orgânicos em Poços de Caldas (MG). Vegetariana há doze anos e já adepta de um estilo de vida consciente e sempre muito saudável, mudou-se para a capital goiana com o marido, que passara em concurso público, justamente na Semana dos Alimentos Orgânicos. É produtora de pães e bolos veganos e orgânicos há seis anos e vende os alimentos em três feiras distintas, todas especializadas. "Queria trabalhar em algo menos formal", relata. A produtora vende em média 180 pães doces e salgados por mês e utiliza o açúcar, sempre orgânico, apenas nos bolos de cacau, com saída de dez unidades mensais, encomendado por clientes sem restrição alimentar.

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açúcar orgânico; saudável; desenvolvimento
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