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28/04/2015

Sistema agroflorestal com cacau recupera área degradada
 

Estudo observa potencial de sistemas agroflorestais com cacau para recuperação de áreas degradadas. Inseridos no contexto do desmatamento da Amazônia, principalmente com relação à atividade pecuária no município de São Félix do Xingu (PA), os sistemas agroflorestais com cacau (SAF-cacau) representam uma forma alternativa de uso do solo pela agricultura familiar.

Além do retorno econômico, o SAF-cacau proporciona benefícios sociais e ambientais. A fim de entender o potencial desse sistema para recuperação de áreas degradadas em São Félix do Xingu, o engenheiro florestal Daniel Palma Perez Braga realizou seu mestrado focado no tema, no Programa de Pós-graduação (PPG) em Recursos Florestais.

Para alcançar os objetivos do estudo, ele avaliou aspectos da vegetação (estrutura florestal e diversidade florística) e do solo (fertilidade e macroinvertebrados) nos SAF-cacau, tendo como referência áreas de pastagem e de floresta madura.

No início, o pesquisador realizou a checagem de campo e revisão bibliográfica para a definição dos métodos de pesquisa. Em seguida, vivenciou a realidade local durante cinco meses. “Morei cerca de uma semana com cada produtor que participou do estudo, para coletar os dados”, conta Braga.

O material botânico foi identificado nos herbários da ESALQ (Esa) e do Museu Paraense Emilio Goeldi. “Os demais materiais coletados foram analisados nos laboratórios da ESALQ. Tive a oportunidade de discutir as informações com diversos pesquisadores, inclusive do Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Yale, para gerar os resultados e conclusões da pesquisa”, explica.

Durante seu estudo, o engenheiro florestal pôde perceber que, de acordo com a percepção dos pequenos produtores, o SAF-cacau é, no mínimo, 2,5 a 4 vezes mais rentável do que a pecuária, ocupando uma área até sete vezes menor em suas propriedades. Outro ponto conferido pelas análises de solo é que o pasto possui menor teor de matéria orgânica na camada subsuperficial (20-40 cm), quando comparado à floresta. Quanto à biota, “a densidade de macroinvertebrados do solo se mantém mais estável em florestas e em SAF-cacau do que no pasto, em que ocorre um desequilíbrio sazonal entre o verão e o inverno”.

Segundo Braga, considerando as variáveis estudadas de estrutura florestal, o SAF-cacau possui um alto potencial de recuperação de áreas degradadas. Em relação às variáveis estudadas de riqueza, diversidade e composição de espécies arbóreas, o SAF-cacau está aquém das florestas. Ainda assim, mantém tal potencial, podendo ser melhorado através de práticas de manejo para seu enriquecimento e do planejamento das futuras lavouras.

De acordo com o pesquisador, o estudo ajuda a estimular o uso de sistemas agroflorestais para ampliar a área de produção de cacau sem promover o desmatamento, mas por meio da recuperação de áreas degradadas, valorizando o manejo aplicado pela agricultura familiar. No entanto, ele destaca que as lavouras de cacau são áreas produtivas e não devem ser consideradas substitutas de áreas com floresta nativa. “Em nenhuma hipótese deve se estimular a derrubada de florestas para a implantação de novas áreas de SAF-cacau, principalmente considerando que, atualmente, todo desmatamento em São Félix do Xingu é ilegal e que existem inúmeras áreas abertas passíveis de recuperação”, afirma.

O projeto foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e teve apoio do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). A orientação foi do professor do Departamento de Ciências Biológicas, Dr. Flávio Bertin Gandara Mendes.

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