Nas palavras simples de dona Adelice Pereira está representada e importância do cultivo das sementes crioulas para a agricultura familiar: “Essa tradição veio da minha avó. Hoje cultivo mais de 200 espécies de sementes”, disse Adelice orgulhosa, no lançamento do Projeto Sementes Crioulas, ocorrido nesta quarta-feira (20), durante a II Feira da Agrobiodiversidade, que aconteceu no Semiárido Show, em Petrolina, Pernambuco.
O projeto é uma das ações estratégicas do Pró-Semiárido, projeto executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa pública vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia (SDR), via acordo de empréstimo entre o Governo do Estado e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida).
O evento celebrou também a parceria entre o Pró-Semiárido e as organizações Serviço de Assessoria a Organizações Populares (Sasop) e Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa da Bahia (CPC-BA), para a execução de ações voltadas para o resgate, preservação e valorização das sementes crioulas no Semiárido baiano, e que conta, ainda, com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Semiárido.
Moradora do sítio Paraíso, no munícipio de Jacobina, dona Adelice sabe que preservar o cultivo de sementes crioulas significa muito mais do que plantar e colher, mas também compartilhar conhecimento, preservar a memória ancestral e fortalecer o patrimônio genético, que representa a biodiversidade do Semiárido nordestino: “Essas mulheres e homens são guardiães e guardiões de um saber que é símbolo de resistência a uma agricultura que insiste em destruir a natureza”, explicou Carlos Henrique Ramos, subcoordenador do projeto Pró-Semiárido, durante o lançamento do projeto.
Eduardo Araújo, técnico do SASOP, ressaltou que se não fosse pelas guardiãs e guardiões muitas sementes já teriam desaparecido: “A feira foi pensada também para que haja troca de sementes, para que elas se espalhem e sejam preservadas”.
O chefe geral da Embrapa Semiárido, Pedro Gama, completou: “O intercâmbio das sementes é também um intercâmbio de afeto e conhecimento”. O analista de projetos do Fida, Frederico Lacerda, reforçou: “O projeto simboliza um passo à frente no processo da implantação de práticas agroecológicas no Semiárido”.
Já Leomárico Silva, representante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), salientou que o cultivo já é feito nas comunidades, e que o projeto chega para auxiliar com as orientações sobre como produzir, fortalecendo essa prática nos municípios onde o Pró-Semiárido está presente.
Petula Ponciono, chefe geral da Embrapa Solos, falou da necessidade de valorização dos produtores: “Precisamos fortalecer essa rede de apoiadores para dar suporte a esse projeto tão importante”.
Sementes de vida, luta e resistência
Segundo Carlos Henrique Ramos, do Pró-Semiárido, foram essas parcerias que possibilitaram a realização da feira e o lançamento do projeto: “O Pró-Semiárido se tornou um grande guarda-chuva de parcerias, viabilizando projetos como o de Sementes Crioulas”. Ele observou que é essencial lembrar a palavras da guardiã Adelice, ao dizer que aprendeu a cultivar as sementes com a sua ancestral e que mantém viva essa tradição: “Ela sabe que preservar as Sementes Crioulas é preservar a vida”.
Intercâmbio – A II Feira da Agrobiodiversidade – Sementes Crioulas: Patrimônio dos Povos do Semiárido a Serviço da Vida contou com cerca de 55 barracas de feira, com produtos de mais de 120 agricultores, guardiões e guardiãs de sementes, de 23 municípios do Semiárido baiano. Foram expostas as variedades de sementes alimentícias, de plantas nativas e forrageiras, além de espécies de abelhas, caprinos e galinhas nativas. Os expositores com maior número de espécies de sementes foram homenageados com troféus confeccionados por artistas locais.
A feira recebeu mais de mil visitantes, agricultores e agricultoras das 25 caravanas vindas de municípios baianos, localizados nos territórios Sertão do São Francisco, Piemonte Norte do Itapicuru e Piemonte da Diamantina. A ação foi realizada pelo projeto Pró-Semiárido, em parceria com o Sasop e apoio do CPC-BA e Embrapa Semiárido.