A importância das políticas públicas no empoderamento e no protagonismo da mulher rural

09/03/2020

Uma pernambucana arretada que tem desbravado o rural baiano, compartilhando conhecimento, capacitando agricultoras e agricultores familiares, dialogando com homens e mulheres, jovens e idosos, sobre a sua importância para desenvolvimento rural. Ana Elisabete Siqueira, formada em Engenharia Agrônoma pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), especialista em Associativismo pela UFRPE e Mestre em Estudo Interdisciplinar sobre Mulheres, Gênero e Feminismo, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), foi convidada pela equipe de comunicação da Secretaria de Desenvolvimento Rural (Ascom SDR) para um bate-papo sobre a importância das políticas públicas do Governo do Estado no empoderamento e no protagonismo da mulher rural.

Beth Siqueira, como é carinhosamente conhecida no meio profissional, é a primeira convidada de uma ação denominada #SDRentrevista, que tem por objetivo informar e dar publicidade aos assuntos estratégicos que dialoguem com o desenvolvimento rural da Bahia. Ela atualmente é assessora de gênero e responsável pelas relações étnicos, raciais e geracionais do Pró-Semiárido, projeto executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa pública vinculada à SDR, por meio de acordo empréstimo com Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).


Então, sem mais delongas, meu caro leitor(a), você confere abaixo e na íntegra como foi a proza com Beth Siqueira sobre a importância das políticas públicas do Governo do Estado no empoderamento e protagonismo da mulher rural.


Qual a importância das ações da SDR voltadas para o empoderamento das mulheres na área rural?

É muito importante essa ação da SDR, é uma secretaria nova, mas que tem uma capilaridade no universo rural. Foi criada para isso e vem dando muita oportunidade para as mulheres rurais e agricultoras, a partir da participação efetivas delas em todas as unidades da SDR, desenvolvem trabalho com viés de gênero envolvendo mulheres e homens, mas principalmente as mulheres.

Evidente que todas essas ações, em todas as unidades, nós do Pró-Semiárido e de outras áreas, desenvolvemos efetivamente a integração das políticas públicas que vieram direcionadas para as mulheres do campo, a assistência técnica e extensão rural diferenciada, específicas para as mulheres agricultoras. Isso é um fator determinante, nós temos a Superintendência Baiana de Assistência Técnica e Extensão Rural (Bahiater), por exemplo, que atualmente vem desenvolvendo um edital específico para mulheres rurais. Na CAR nós temos o projeto Bahia Produtiva, que faz um trabalho com cotas para a participação das mulheres no associativismo, à frente de cooperativas. Então, a SDR vem materializando em sua intervenção as políticas públicas, dando visibilidade à presença efetiva das mulheres nesses empreendimentos e ações que vêm fortalecendo e levando as mulheres agricultoras a um processo de empoderamento individual e coletivo.

O Projeto Pró-Semiárido tem atuação estratégica com o enfoque de gênero, como é feito esse trabalho e qual o objetivo?

O Pró-semiárido tem algumas diretrizes e princípios, além de ser uma exigência do Fida que a gente trabalhe, em nossas ações, a participação de mulheres em todos os cargos e diretrizes das associações que são conveniadas conosco do Pró-Semiárido, questões voltadas para o empoderamento delas.

E nós do projeto, e acho que de outras unidades que trabalham nesse universo voltado para o rural, nos deparamos com a vivência muito dura, que é o machismo. Ele se materializa muito no cotidiano em forma de piada, de brincadeiras, de gozações e nossa intervenção nos leva a envolver e a perceber isso, que machuca muito as mulheres, inclusive até em forma de violência, não só física. E as mulheres, ao se envolverem com as ações efetivas do Pró-semiárido, percebem o seu valor, significado, e sua importância para o desenvolvimento, educação, cultura e a economia daquele núcleo familiar. Para isso, nós temos que enfrentar esse machismo, que é exposto com frases corriqueiras, eu escuto muito das agricultoras: “Ah!, meu marido diz muito que lugar da mulher é na cozinha, esquentando a barriga no fogão e esfriando no tanque”. Isso revolta as agricultoras, porque elas sabem que o espaço da mulher não é só nas tarefas domésticas.

As ações do Pró-Semiárido, da SDR e da CAR são para incluir essas mulheres nas atividades produtivas, não só reprodutivas. As mulheres rurais ainda estão muito envolvidas, mas não estão visíveis na produção. Elas estão no manejo animal, nos quintais agroecológicos, bordam, produzem artesanato nas unidades de beneficiamento, assumem as associações e vão para as cooperativas. Porém, ao enfrentar esses desafios e os espaços públicos, elas não deixam de assumir os espaços privados, então, as atividades continuam sobre elas, que ficam com muita sobrecarga. Essa é uma questão que no processo de formação leve essas mulheres, não só a participar efetivamente das ações, mas decidir, gerir e também se apropriar dos recursos gerados sobre os investimentos do Fida e do Estado. Essas mulheres voltam a estudar, porque deixaram o estudo no meio do caminho, tiveram muitos filhos, começam também a querer se cuidar, se sentir mais valorizada, a passar um batom, a ter o dinheiro dela e comprar uma bíblia, se for isso que o ela queira.

Essas mulheres, quando começam a decidir sobre suas vidas, às vezes incomodam o poder instituído pelo homem, o pai, o marido, às vezes o irmão, e cria alguns conflitos. Então, a ação do Pró-Semiárido é uma ação de conscientização, resgate e reconstrução. Nos encontros de mulheres, nos encontros de homens e nos encontros mistos, onde juntamos homens e mulheres, para discutir as relações sociais de gênero, é o momento que a gente está tentando trabalhar a questão da desconstrução da masculinidade opressora, que hoje se trabalha num olhar mais teórico, chamando de tóxica, mas é uma construção cultural, que fragiliza muito a mulher e também o homem. Nos encontros de homens estamos tendo a oportunidade de perceber que a gente precisa conversar sobre esses temas e ação do projeto tem sido assim, de inclusão, participação efetiva em todos os espaços de homens e mulheres, mas de uma reflexão sobre esse lugar da mulher na unidade de produção e no universo rural.


O que é caderneta agroecológica e como ela impacta a vida das mulheres no campo?

A caderneta agroecológica é uma ferramenta, é um instrumento de monitoramento do processo de produção das agricultoras. É importante dizer que essa ferramenta foi criada pelo movimento de mulheres camponesas de Minas Gerais junto com o Centro de Tecnologias Alternativas Zona da Mata, que é uma ONG que desenvolve um trabalho com foco agroecológico, numa perspectiva feminista e essas mulheres estão inseridas dentro da articulação nacional de agroecologia.

Essa ferramenta foi um processo de formação com mulheres agricultoras quando se discutia o processo de produção, e nesse processo, as técnicas, junto com as agricultoras, foram percebendo que as mulheres tinham dificuldade de registrar a sua produção, de contabilizar. E esse caderninho, que é chamado de caderneta agroecológica, porque a agricultora nela vai sistematizar, vai escrever, ela mesmo, e não são os técnicos. Por isso, a valorização dessa ferramenta, e ela vai em quatro colunas, a primeira coluna é o consumo, a segunda você vai ver que ela vai trabalhar a troca e ela vai trabalhar também a venda que é a última coluna e ela vai trabalhar também uma coisa que a gente há muito se perde, que é a doação, e ela tem essa especificidade de resgatar isso que ainda existe no universo rural.

É válido ressaltar que a caderneta não é só um instrumento de monitoramento, ela é efetivamente uma ferramenta política, porque dá visibilidade ao que era invisível. A agricultora, ao anotar o que ela consome diariamente, que geralmente é produzido em seu quintal, em sua área, vai dar visibilidade ao que a gente chama de “miudeza”, que nunca foi contabilizada, porque, na lógica capitalista, o que tem valor é a grande produção, geralmente é o carro-chefe que o homem tem em sua propriedade. Ah! ele tem caprino, tem mandioca, trabalha com mel e o universo dessas mulheres agricultoras vai além, porque na realidade não é quantidade, é essa diversidade. Então, a ferramenta nos possibilitou, enquanto pesquisadoras e extensionistas, identificar quanta diversidade existe ao entorno do trabalho da mulher. Essa mulher coloca desde a mandioca até a costura, porque ela comercializa, ou mesmo, quando ela tem uma fruteira em sua casa, uma acerola, ela faz um sacolé, ela vende algo, ou ela faz da mandioca um beiju, faz um bolo e coloca tudo que comercializa na caderneta, mesmo o que vende na comunidade, mesmo que seja do consumo da família, ou se ela dá para uma cunhada, para uma filha um mói de coentro, ela registra na caderneta, que é revolucionária, e de repente a gente percebe que essas mulheres têm um potencial na economia familiar que era não visto, não percebido, não valorizado.

Essa caderneta se torna revolucionária quando ela vai dar segurança à agricultora, porque, ao registrar essa mulher, começa a construir uma estima dela própria, do valor dela, porque você sabe que em um país capitalista, quando você não gera recurso, dinheiro, você se sente meio fora da realidade, dependente. No processo que a gente vem construindo via SDR, nós estamos dando oportunidade a essas mulheres,nós estamos dando visibilidade, e estamos agora percebendo, através da pesquisa com a caderneta agroecológica, que não somos nós só, a Bahiater, por meio do seu edital específico de Ater para mulheres, também vai utilizar a caderneta agroecológica em sua intervenção, junto com as entidades executoras, porque nós percebemos como vem construindo um processo de conscientização e de empoderamento das mulheres agricultoras, por nós, pela intervenção do projeto Pró-Semiárido.


O que alimenta e estimula Beth Siqueira a trabalhar e contribuir com a vida das mulheres rurais?

Eu sou extensionista e isso é evidente na minha ação, é o campo, eu sou agrônoma há 30 anos, sou pernambucana e vivi esse processo organizacional, o que mais me alimenta é ver como pequenas ações levam mulheres do campo, que não tiveram acesso à leitura, que não tiveram oportunidade de sonhar outros sonhos, além de casar e procriar, ter a oportunidade de perceber que elas podem mudar a realidade delas, assim como eu mudei. Minha mãe me levava quatro quilômetros para que eu fosse diferente da vida dela, que eu pudesse escolher ser o que eu quisesse ser, eu tive uma mãe que fez isso. Eu vim de uma família extremamente machista, de um pai extremamente conservador, quatro irmãos homens e eu única mulher, mas eu tive essa mãe, que numa mata atlântica, numa zona da mata pernambucana, andava de galocha, capa de chuva, e dizia que eu iria estudar para mudar minha realidade, e que o casamento não seria minha única opção. É isso que eu faço no campo, é ver jovens mulheres e também mulheres maduras, que a partir do nosso trabalho começam a sonhar outras coisas, a não se ver apenas limpando “bundinha” de menino e cozinhando. Isso faz, sim, me motivar e eu já tenho técnicas agrícolas na minha equipe que foram e são agricultoras, que sonharam e hoje estão em uma universidade, estão fazendo mestrado. É isso o que eu, Beth Siqueira, estou fazendo na CAR/SDR.



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