A valorização dos conhecimentos dos agricultores e agricultoras familiares, da natureza, associada à instalação de tecnologias sociais produtivas de acesso a água, de baixo custo e sustentáveis, vem mudando a realidade de famílias do Semiárido baiano. Com a chegada da COVID-19, essa junção se mostrou ainda mais eficiente, pois tem abastecido a mesa de quem está no campo, como também, para quem está isolado na cidade.
Um bom exemplo é a construção de cisternas de placas para armazenamento de água das chuvas, tanto para o consumo da família como para a produção na propriedade familiar. A água da enxurrada vai direto para a cisterna de produção e é utilizada para molhar a horta, o pomar e saciar a sede dos animais criados no entorno da casa. Já a cisterna de consumo humano armazena a água para beber e para realizar as atividades domésticas. É assim que os coentros de dona Sezuíta, da comunidade Várzea Queimada, no município de Caém, permanecem verdinhos o ano todo. “Se não fosse a minha cisterna, não restaria um. Eu teria que ir até a feira comprar”, explica.
As cisternas de placas fazem parte de um leque de tecnologias sociais produtivas viabilizadas pelo Governo do Estado da Bahia, por meio do Pró-Semiárido, executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), e cofinanciado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).
“O que o Pró-Semiárido buscou fazer foi valorizar o conhecimento já existente dessas famílias, como também orientá-las quanto ao abandono de práticas da agricultura convencional, a exemplo do uso de agrotóxicos, e sobre as melhores práticas e tecnologias a serem adotadas, que possibilitassem essa reconexão com a natureza”, explica o subcoordenador do Componente Produtivo do Pró-Semiárido, Carlos Henrique.
Além das cisternas, o Pró-Semiárido tem instalado canteiros econômicos e telados, que minimizam a incidência dos raios solares nas plantações e o consumo de água; construído apriscos e aviários rústicos para melhorar o manejo de caprinos, ovinos e das aves, fornecido kit básico para a criação de abelhas de forma artesanal, além de entregar equipamentos para utilização coletiva pelas comunidades beneficiadas pelo projeto, a exemplo das máquinas para a produção de silagem. Além de fornecer a infraestrutura, o Pró-Semiárido mantém Assessoramento Técnico Continuado (ATC) às famílias.
Em tempos de pandemia, ainda que de forma restrita, e seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Governo do Estado, os beneficiários do grupo de caprino-ovinocultura, no município de Umburanas, tem mantido a produção de silagem para alimentar as criações de caprinos e ovinos da comunidade. “Em um cenário tão atípico, como o que temos vivido, é recompensador ver a autonomia desses agricultores e agricultoras tocando suas produções, seus rebanhos, enfrentando as dificuldades característica de uma região semiárida como a nossa, com altivez e mais dignidade”, relata a coordenadora do escritório do Pró-Semiárido, em Jacobina, Rejane Maia.
O canteiro econômico de dona Valdinéia, no povoado de Macaúbas, em Miguel Calmon, também segue a pleno vapor, garantindo o alimento para sua família e um pouco de alegria em tempos tão desafiadores. “Olhem aí que maravilha! Olha o tamanho da folha desta couve! E esse pé de pimentão enorme!”, comemora orgulhosa em áudio, acompanhado das imagens de sua produção, enviado via rede social para os técnicos do projeto.
No município de Umburanas, o Agente Comunitário Rural (ACR) do Pró-Semiárido, Fábio Ribeiro, fala com orgulho do canteiro econômico de dona Euzélia, da comunidade Belas do Delfino: “Colocando em prática tudo que aprendeu com projeto”, descreveu o ACR Fábio, jovem contratado para apoiar as ações do projeto na comunidade. O sorriso sereno de dona Euzélia, exibindo o fruto do seu trabalho, nos diz que a natureza segue seu curso, viva e dando sinais. Em tempos de tantas incertezas, o nome do Território Rural, onde ela tem o seu quintal e mora com a sua família, é sugestivo: Boa Esperança, onde o que se planta dá, inclusive novas formas de viver e conviver com as dificuldades.