O município de Jacobina foi palco do Encontro das Comunidades Quilombolas da Chapada Norte Pilares da Terra. O evento, realizado nos dias 23 e 24 de março, reuniu representantes de comunidades quilombolas de nove municípios para analisar a conjuntura política e social dos quilombos, fortalecer a Rede Quilombola Chapada Norte e pensar ações para avançar nas conquistas do para essa população.
O encontro foi promovido pelo Governo da Bahia por meio do projeto da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), Pró-Semiárido, pela Rede Quilombola Chapada Norte e pelo Colegiado de Desenvolvimento Territorial (Codeter).
“Estamos aqui para nos aquilombar, para celebrar a força dos nossos antepassados, para defender nossos direitos e pensar juntos sobre ações que precisamos desenvolver para avançar em novas conquistas”, explicou a coordenadora local do Pró-Semiárido, Rejane Magalhães.
O Encontro foi idealizado pelo Pró-Semiárido como uma estratégia de sustentabilidade das ações voltadas para o povo quilombola nos seus territórios de atuação. “Nós vamos embora e o projeto vai acabar, mas precisamos deixar esse legado sedimentado e as comunidades conectadas, unidas e fortes”, disse Rejane.
Na abertura do encontro foram apresentadas as ações, resultados e desafios da Rede Quilombola Chapada Norte, feita pelo vice-presidente Junior de Todos e pelo assessor Markus Breus. “Antes de qualquer coisa, eu quero lembrar de meu pai José Cordeiro, negro, quilombola que nos ensinou sobre resistência e a nunca desistir! Dizer que precisamos valorizar esse povo que lutou e luta pela valorização do território, pois foram muitas lutas para a gente chegar nesse ponto em que estamos aqui hoje, requerendo nosso espaço”, ressaltou Junior , que lembrou do início da Rede: “Muitos não acreditavam que a Rede Chapada Norte ia acontecer, mas aconteceu e nós crescemos e estamos conquistando muitas políticas públicas”.
Após conhecer a Rede e os seus desafios, o público foi convidado a analisar a conjuntura política e social das comunidades quilombolas em um painel composto pela assessora de Monitoria e Avaliação do Pró-Semiárido, Carla Silva, pela professora da Uneb, Gabriela Barbosa, e pelo engenheiro ambiental e sanitarista do Pró-Semiárido/Quilombo Legal, Jacson Machado.
“A nossa luta é ancestral desde quando, desrespeitosamente, trouxeram nosso povo para cá para roubar nossas riquezas. Mas é como diz Conceição Evaristo: ‘Eles combinaram em nos matar e nós precisamos combinar em não morrer!”, observou Carla Silva. A professora Gabriela Barbosa salientou a importância da democratização e do acesso dos negros às estruturas de poder, ao citar o sistema judiciário: “é racista e isso influencia diretamente na forma como os juízes julgam”. Já o engenheiro Jacson Machado destacou a importância das ações para a regularização ambiental e fundiária das terras quilombolas.
Na segunda parte do evento, os participantes foram divididos em grupos para discutir ações de fortalecimento da Rede e para a construção de uma carta de encaminhamentos e reivindicações. O documento foi entregue, no segundo dia do evento, na Câmara de Vereadores de Jacobina.
A agricultora quilombola Maria Lúcia de Jesus resumiu o sentimento em participar do Pilares da Terra. “Meu sentimento é de felicidade por estar aqui, por termos a oportunidade de falar, de ecoar a nossa voz. De falar das nossas necessidades e das coisas que nos incomodam. Nosso desejo é que as pessoas nos respeitem e nos valorizem como somos e, principalmente, a nossa história de lutas e contribuições para o país”.
Caminhada – Após a sessão da Câmara de Vereadores, os(as) quilombolas saíram em caminhada pelas ruas da cidade até o quilombo urbano da Bananeira, onde foram recebidos(as) para um almoço comemorativo, com direito a muito samba, rodas de capoeira e danças afro.
O projeto Pró-Semiárido é executado pela CAR, empresa pública vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), com cofinanciamento do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).