28/12/2015
Antes mesmo das cinco da manhã, a agricultora Denise de Oliveira Calçada já está de pé para arrumar os três filhos para a escola. Viúva desde 2010, a trabalhadora rural, de 37 anos, concilia diariamente as tarefas domésticas com a missão de garantir a renda do mês. A principal fonte de sustento para a família de Denise é a horta em que cultiva mais de 20 tipos de legumes e frutas. Quase 90% do que é produzido nas 14 tarefas de terras, localizadas na zona rural do município de Serrinha, são comercializados no Armazém da Agricultura Familiar, instalado há dois anos na sede da cidade.
O Armazém, administrado pela Agência Regional de Comercialização do Sertão da Bahia (Arco Sertão Central), é resultado de uma parceria entre a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), por meio da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre) e a Superintendência de Desenvolvimento Industrial e Comercial (Sudic). Para implantação do estabelecimento foi investida a quantia aproximada de R$ 1,2 milhão do Fundo de Combate à Pobreza. A unidade funciona conveniada a 45 cooperativas e beneficia ao todo 2.363 famílias distribuídas pelo território baiano. O número corresponde a quase dez mil produtores rurais, sendo 59% deles mulheres e 41% homens.
“A gente só precisa se preocupar com o cultivo, a venda fica por conta do Armazém. Apesar do dinheiro às vezes demorar para chegar, quando chega a gente consegue pagar contas, comprar esterco, fazer manutenção em casa. O dinheirinho que a gente consegue, ajuda a pagar também a escola dos meus meninos”, afirma Denise.
A iniciativa integra as ações do Programa Vida Melhor, do Governo do Estado, e contempla, além da agricultura familiar, a economia solidária. No estabelecimento, as vendas podem ser feitas tanto avulsas quanto por encomendas. Quando o consumidor deseja efetuar uma compra de grande quantidade de itens, o Armazém solicita a alguma das cooperativas os produtos para fechamento da venda. É função da cooperativa entrar em contato com os produtores rurais e lançar os pedidos.
“O nosso contato é sempre com as cooperativas. Baseados na lista de itens escolhemos as cooperativas que representam produtores daquele tipo de mercadoria”, explica Eleneide Alves, diretora presidente da Arco Sertão Central.
O imóvel tem capacidade de armazenar até 150 toneladas de produtos secos e 15 toneladas de produtos congelados ou refrigerados. Mais de 150 tipos de mercadorias são comercializados no local, mas se engana quem pensa que a unidade serve como ponto de apoio apenas para o comércio da região. Entre os principais itens expostos nas prateleiras do local estão o café de Barra do Choça, o mel de Ribeira do Pombal, o leite em pó de Capela, a farinha de Amargosa, abacaxi e barra de cereais de Itaberaba e o feijão de Irecê. Também são vendidos produtos de fora do estado, a exemplo dos vinhos do sul do país.
“O nosso modelo tem atraído a atenção de muitos comerciantes do exterior. Várias caravanas já vieram aqui para conhecer o Armazém e saber o que a gente tem feito para o formato dar tão certo”, conta Elsimar Carneiro, gerente administrativo da unidade.
Em média, 60 pessoas visitam a unidade diariamente para comprar mantimentos e peças de artesanato que ficam expostos no local. O administrador, Silvonei de Souza, é um dos clientes que compram de forma frequente. Café, castanha, doces, farinha e bebidas são os itens mais procurados pelo serrinhense. “Alguns deles chegam a ser até um pouco mais caros quando comparados a um mercado comum, mas posso assegurar que a qualidade é superior também. Os produtos são muito bons. Às vezes quando compro de outro lugar noto a diferença”, destaca Silvonei.
Merenda escolar
Quando o assunto é educação, a merenda escolar tem fundamental importância na aprendizagem de crianças e adolescentes. Segundo Eleneide Alves, diretora presidente da Arco Sertão Central, as prefeituras municipais são as principais clientes do Armazém, correspondendo a 87% das vendas no ano. A unidade participa de licitações para programas governamentais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Atualmente, o Armazém da Agricultura Familiar atende as prefeituras de Serrinha, Teofilândia, Capela, Sátiro Dias e Olindina. Em média, por mês, estão sendo fornecidos entorno de R$ 100 mil em produtos para a administração pública, que são repassados em forma de merendas para as escolas municipais e estaduais de cada região.
“A gente participa das chamadas das prefeituras municipais. Fica definido previamente o que será entregue nas escolas para aquele mês. É a partir dessas solicitações que fazemos os pedidos às cooperativas. Os produtos perecíveis são entregues semanalmente, mas os que não são perecíveis são levados de uma vez para o mês todo”, explica ela.
Somente em Serrinha, o contrato anual para o fornecimento de mercadorias tem o valor de R$ 700 mil para garantir a merenda de 15 mil alunos. Em 2015, o teto já foi alcançado e um aditivo de 30% solicitado pela administração do município. No Colégio Estadual Josevaldo Lima, localizado há 18 km da sede da cidade, é fácil encontrar estudantes que fazem a primeira refeição do dia na hora do recreio. Lívia Ribeiro, do 2º ano do ensino médio tem esse hábito. Ela dribla o café da manhã carente de casa para matar a fome com o lanche que varia a cada dia.
“Lá em casa tem comida, não faço isso por falta. Mas eu prefiro comer na escola mesmo. A comida é mais gostosa”, enfatiza.
De acordo com a diretora da instituição de ensino, Selma Mendonça, os valores nutricionais de cada alimento são levados em conta na hora de elaborar o cardápio do mês. “A gente observa que comer a mesma coisa todo dia não motiva os alunos. Aqui, como o ensino é em tempo integral, os alunos fazem duas refeições: a merenda e o almoço. Pensamos sempre em preparar coisas que matem a fome deles e os deixem com uma saúde forte”, pontua Selma.
Mais armazéns
A maneira como o Armazém da Agricultura Familiar de Serrinha tem contribuído para o desenvolvimento da produção rural motivou a SDR a intensificar o projeto. Em março deste ano, foi anunciada a intenção de implantar mais cinco armazéns da agricultura familiar em diferentes Territórios de Identidade. O modelo da central deve ser replicado nos novos empreendimentos através do projeto Bahia Produtiva, lançado este ano.
De acordo com o Fernando Cabral, coordenador do Bahia Produtiva, está prevista a aplicação de 260 milhões de dólares nos próximos cinco anos, sendo 150 milhões oriundos do Banco Mundial através de um acordo de empréstimo fechado com o Governo do Estado, com juros de 0,9% ao ano. A previsão é que 54 mil famílias de agricultores familiares, indígenas, quilombolas, pescadores e marisqueiras, espalhadas em 416 municípios, sejam atendidas pelo projeto.
O Bahia Produtiva apresenta três componentes, sendo eles o de inclusão produtiva, abastecimento de água e esgotamento sanitário, e o apoio e capacitação dos produtores. Foram lançados três editais no dia 13 de agosto deste ano para a seleção de subprojetos orientados para os mercados das cadeias produtivas do leite, da apicultura e da meliponicultura, e subprojetos socioambientais.
“Foram inscritas mais de 3.300 associações cooperativas. Já foram avaliados pelos conselhos municipais e os colegiados territoriais. Vamos iniciar as visitas de campo para constatar a viabilidade desses pleitos. A ideia é aplicar os primeiros recursos no mês de dezembro”, afirma Cabral. O projeto total prevê alcançar o número de quinze armazéns da agricultura familiar para facilitar a comercialização dos produtores rurais.
Outro projeto criado exclusivamente para a agricultura familiar lançado pelo Governo do Estado foi o Pró-Semiárido. Com o valor de 95 milhões de dólares, resultado de um empréstimo junto ao Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), a iniciativa abrange os trinta municípios mais pobres da Bahia. O Pró-Semiárido tem duração de seis anos e prevê o combate à pobreza por meio das oportunidades do setor agrícola.
“Com a agricultura familiar forte, a gente tem um estado mais forte. O primeiro impacto imediato é a redução da pobreza. As famílias vão passar a ter um acréscimo de renda, tendo uma atividade econômica viável. Vai aumentar a circulação de riqueza nesses municípios”, conclui o coordenador do Pró-Semiárido, César Maynart.