Projeto Quilombolas realiza intercâmbio em Uauá com comunidades do Recôncavo baiano

02/05/2013

Representantes das comunidades quilombolas de Engenho da Ponte, Engenho da Cruz e Ladeira da Cadeia, do município de Cachoeira, e Quilombo, do município de São Félix, participaram nesta semana, de um intercâmbio em Uauá, localizado no nordeste baiano, com o objetivo de conhecer a experiência de sucesso e as diversas atuações da  Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Curaçá e Uauá (Coopercuc).A iniciativa, promovida pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa da Secretaria de Desenvolvimento e Integração Regional (Sedir), através do Projeto de Inclusão de Comunidades Remanescentes de Quilombos – Projeto Quilombolas, surgiu da necessidade de mostrar às comunidades o modo como podem evoluir e trabalhar suas potencialidades.O coordenador do Projeto Quilombolas, Antônio Fernando da Silva, ressaltou a importância dos intercâmbios para incentivar a inclusão dos quilombolas e valorizar não só a cultura e tradição dessas comunidades, mas a inclusão socioprodutiva. “A inclusão social só se dá quando acompanhada da inclusão produtiva e econômica”, afirmou.De acordo com o assessor técnico do Projeto Quilombolas e consultor em associativismo e cooperativismo, Raimundo Mangabeira, o intercâmbio visa despertar nas comunidades de Cachoeira e São Félix o cooperativismo, por meio da experiência de sucesso da Coopercuc. “A região de Cachoeira, São Félix e Maragogipe se assemelha a de Uauá especialmente pela possibilidade de beneficiamento de frutos derivados do extrativismo”, disse.Para a assessora técnica do Projeto Quilombolas, que trabalha na consolidação das associações e cooperativas das comunidades tradicionais, Luzia Querino, esse encontro, que teve a finalidade de incentivar o trabalho na Cooperativa da Ladeira da Cadeia. "É uma ação importante para motivar o cooperativismo nas comunidades do Recôncavo e para que elas possam superar dificuldades a partir das vivências da Coopercuc. Nem mesmo a distância é impedimento para tocar um projeto como esse”, destacou.Segundo o coordenador de comunicação e formação profissional da Coopercuc, Jussemar Cordeiro da Silva, a cooperativa visa não só o retorno financeiro para os seus cooperados, mas uma mudança do modo de vida dessas comunidades, com a luta pela preservação do umbuzeiro e extrativismo sustentável, acesso à luz elétrica e às cisternas e preservação do fundo de pasto, além de tratar de questões relacionadas com a regularização da posse da terra e acesso ao crédito. “A cooperativa pensa não só nos cooperados, mas em toda a comunidade e nas suas necessidades”, enfatizou.Durante o encontro os visitantes puderam conhecer a história da cooperativa desde o início no ano de 1986, quando foram dados os primeiros passos, além de reconhecer as principais dificuldades encontradas para a consolidação e criação da Coopercuc. Foi possível perceber a intervenção da entidade na proposição de implementação de políticas públicas através de programas como o Água para Todos, Luz para Todos, Pronaf, Bioma Caatinga, Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Convivência com a Seca, Lei de Segurança Alimentar e Nutricional e Programa de Regularização de Terras.Durante a visita foi visitada uma das unidades de beneficiamento de frutas que pertencem à cooperativa. Os quilombolas e a equipe técnica conheceram a mini fábrica da Comunidade Lages das Aroeiras, localizada a cerca de 20 quilômetros de Uauá. De lá sai polpa das frutas e outros produtos como doces, geleias, sucos e compotas.Segundo a tesoureira da Associação de Desenvolvimento dos Moradores de Engenho da Ponte, do município de Cachoeira, Maria da Conceição Abade da Silva Confessor, o encontro superou as expectativas. “A união e a garra presentes na Coopercuc foram as coisas que mais me chamaram a atenção. Eles são um exemplo, pois apesar das dificuldades eles não desistiram. Se eles venceram, acredito que nós também venceremos”, ressaltou.O presidente da Associação de Pequenos Produtores de Quilombo e Região, do município de São Félix, Gerson Carvalho Barbosa, impressionou-se com a organização das mini fábricas de beneficiamento das comunidades, que, apesar da distância, conseguem manter o vínculo com a unidade localizada na sede do município. “Eu consegui aprender com a realidade e experiência da Coopercuc e me encantei com o modelo de gestão da cooperativa”, salientou.A estrutura das mini fábricas de beneficiamento e o aproveitamento das frutas nativas também chamaram a atenção do coordenador de educação da Associação dos Quilombolas de Engenho da Cruz, do município de Cachoeira, Luiz Ferreira Bispo. “Vamos lutar para implantar essa realidade em nossa comunidade, para que aproveitemos melhor as frutas nativas e introduzidas na região como manga, jenipapo, caju, tamarindo e cajá”, disse.Entre as ações implementadas pela entidade estão a mobilização de entidades governamentais e não governamentais, como prefeituras, secretarias municipais e estaduais e institutos ligados ao meio ambiente. A cooperativa estimula ainda o manejo de mudas para plantação de frutas nativas como o maracujá da caatinga e o umbu, para não depender somente do extrativismo e em contrapartida aumentar a produtividade.Como começouA Coopercuc surgiu a partir de um resgate da tradição religiosa por parte de padres e religiosas da Pastoral Rural que passaram a atuar nas comunidades rurais na região de Uauá. A Igreja Católica passou a incentivar não só as rezas tradicionais, mas estimulou as comunidades a ampliar a visão de mundo despertando uma consciência a cerca dos direitos e deveres dessas pessoas. Nesse processo foi estimulada também a formação de lideranças, o plantio de palmas, espécies resistentes que poderiam servir de alimento na criação de caprinos e a convivência com o semiárido.Parcerias e ConquistasO coordenador de comunicação e formação profissional da Coopercuc, Jussemar Cordeiro da Silva, ressaltou a participação do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA) e a parceria com outras instituições nacionais e internacionais que possibilitaram a consolidação e implantação da cooperativa e certificações como a de Produto Orgânico. As parcerias possibilitaram também algumas conquistas como a de fornecer alimentos para o PAA e PNAE, além da assinatura de alguns contratos comerciais e a seleção dos produtos orgânicos para serem comercializados na Copa do Mundo de 2014.